Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento estratégico apresentado em 4 de março pela Comissão Europeia, o Industrial Accelerator Act introduz pela primeira vez um critério de preferência geográfica: a cláusula “made in Europe”. Trata‑se de um ajuste significativo nas políticas industriais comunitárias, pensado para setores sensíveis à segurança de fornecimento e à soberania produtiva.
O texto prevê que a preferência europeia seja aplicada nos contratos públicos e em instrumentos de apoio a segmentos industriais específicos: indústrias intensivas em energia (aço, alumínio e cimento), tecnologias limpas (eólica, bombas de calor, nuclear, fotovoltaico e baterias) e o setor automotivo. Este pacote é, em essência, um movimento no tabuleiro para reforçar os alicerces da autonomia industrial, sem romper, de imediato, os vínculos comerciais que mantêm a UE integrada à ordem global.
A negociação do escopo geográfico foi o principal nó da proposta, razão para sucessivos adiamentos — a apresentação estava inicialmente prevista para meados de dezembro. A França e o vice‑presidente responsável pela Estratégia Industrial, Stéphane Sejourné, defenderam uma interpretação o mais restritiva possível. Por outro lado, Alemanha e comissários favoráveis ao comércio aberto — incluindo a ministra da Economia Katherina Reiche e o comissário Valdis Dombrovskis — propuseram uma abordagem mais expansiva, qualificada por expressões como “made with Europe”.
O desfecho é um compromisso calibrado: a cláusula “made in Europe” aplicará aos contratos públicos também em relação a países terceiros com os quais a União tenha acordos que instauram uma zona de livre comércio ou uma união aduaneira, ou que sejam parte do Acordo sobre Contratos Públicos da Organização Mundial do Comércio (WTO GPA), quando existam obrigações pertinentes da União decorrentes desses instrumentos.
Para outras formas de intervenção pública, serão considerados equivalentes os países terceiros com acordos de zona de livre comércio ou união aduaneira. Fontes comunitárias indicam que essa lista de equivalência incluirá cerca de 40 parceiros no âmbito dos contratos públicos e cerca de 80 países para outras medidas de apoio.
A União reserva‑se, por meio de atos delegados, o poder de excluir determinados parceiros que não cumpram critérios como a reciprocidade — por exemplo, em caso de medidas protecionistas que limitem o acesso do mercado europeu — ou quando existam riscos que possam ameaçar a segurança do abastecimento, ou por exceções previstas em acordos internacionais (segurança nacional, riscos ambientais, etc.).
Uma exceção notável refere‑se às frotas corporativas: para esses casos, a definição de Made in Europe seguirá a proposta da Comissão apresentada em 16 de dezembro, restrita aos veículos produzidos na UE. No confronto entre abertura e proteção, a proposta finaliza um redesenho de fronteiras invisíveis na tectônica de poder econômica do continente — um movimento deliberado, meticuloso, similar a um lance estratégico num tabuleiro de xadrez, que busca equilibrar soberania industrial e compromissos comerciais.
Em suma, o Industrial Accelerator Act representa um passo institucional importante: não uma clausura, mas uma arquitetura de preferência que pode ser reequacionada conforme a dinâmica geopolítica e as exigências de segurança e reciprocidade.






















