Marco Severini — Diversas capitais europeias estão reavaliando sua presença no Centro de Coordenação Civil e Militar para Gaza (CMCC), instalado em Kiryat Gat e dirigido pelos Estados Unidos. Fontes diplomáticas descrevem uma instituição cujo desempenho alimenta frustrações: ajuda humanitária insuficiente, incapacidade de frear mortes e nulo avanço político. É um movimento que redesenha — de forma discreta e tensa — as linhas de influência no tabuleiro do Oriente Médio.
Segundo relatos confidenciais obtidos junto a observadores e representantes estrangeiros, o CMCC, concebido para coordenar o cessar-fogo, facilitar a entrada de assistência e moldar o futuro político da faixa de Gaza, não cumpriu as expectativas. Uma testemunha que visitou o centro resumiu laconicamente: “Desastroso, não distribui verdadeiramente os auxílios humanitários aos palestinos, não deteve as mortes provocadas por Israel e não promoveu progresso político”.
Essa condenação resume um problema prático e estratégico: quando uma estrutura multilateral se torna incapaz de traduzir intenção em resultado, perde legitimidade. O CMCC foi lançado em outubro no âmbito do plano promovido pelo presidente Donald Trump, hospedando oficiais militares americanos e israelenses, e atraindo inicialmente adesões de França, Alemanha, Reino Unido, Egito e Emirados Árabes Unidos. Meses depois, porém, oito diplomatas estrangeiros relataram não terem retornado ao centro após as festas de fim de ano — sinal de um distanciamento em curso.
Fontes ocidentais qualificaram o CMCC como “sem direção”. Outro diplomata sintetizou com frieza: “Todos pensam que é um desastre, mas não há alternativa evidente”. Essa percepção indica um vazio de opções plausíveis no curto prazo: retirar-se é um gesto político de pressão, mas também reduz a influência direta das capitais europeias sobre decisões que podem redesenhar a cartografia política da região.
O contexto agrava-se com decisões de Tel Aviv. O governo israelense bloqueou a entrada do chamado governo técnico palestino em Gaza, enquanto o ministro Itamar Smotrich pediu a clausura do centro americano, promovendo retórica e medidas que caminham para um controle militar mais amplo da Faixa e para o avanço de novos assentamentos. Sob esse cenário, cresce a crítica de que o CMCC não impediu as ações que muitos — dentro e fora da região — consideram violações humanitárias.
Além disso, há alegações de que Washington, pressionada por Israel, restringiu o acesso ao centro para chefes de missão europeus acreditados junto à Autoridade Palestina. Essa exclusão alimenta tensão transatlântica e levanta questões sobre os alicerces frágeis da cooperação: quando um ator anfitrião restringe a participação de aliados, a arquitetura de coordenação se corrói.
Por fim, reportes não confirmados sugerem que oficiais militares americanos teriam acusado Israel de espioná-los dentro do centro militar, uma acusação que, se comprovada, agravaria ainda mais a crise de confiança entre aliados. Em termos geopolíticos, estamos diante de uma tectônica de poder em movimento: a manutenção de diplomatas no CMCC é tanto um cálculo de influência quanto uma avaliação sobre a eficácia operacional.
Do ponto de vista estratégico, as capitais europeias ponderam o gesto político da retirada como uma peça do jogo diplomático — um movimento que pode sinalizar desalinhamento perante Washington e Tel Aviv, mas também recuperar margem moral e política junto a atores regionais e domésticos. Em suma, o CMCC tornou-se um teste prático da capacidade dos aliados em transformar coordenação em resultados tangíveis; até agora, a nota é insuficiente.






















