Por Marco Severini — A União Europeia parece disposta a transformar cartas visíveis em jogadas estratégicas no tabuleiro diplomático. Em resposta às recentes investidas de Donald Trump sobre a Groenlândia, Bruxelas avalia um recuo tático: o adiamento do voto do Parlamento Europeu sobre o acordo de dazi assinado em julho passado na Escócia por Ursula von der Leyen e o presidente americano.
O dossier comercial — tema sensível para o tycoon — voltou a ganhar centralidade nas interações bilaterais. Na missão americana a Bruxelas, em novembro, o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, acompanhado do negociador Jamieson Greer, pressionou com veemência por um sim rápido ao pacto. Todavia, a conjuntura mudou: a ofensiva sobre Nuuk e Copenhague forçou uma revisão de prioridades no executivo comunitário e, sobretudo, na própria Eurocâmara.
O adiamento do voto — previsto inicialmente para 26 de janeiro na comissão parlamentar de Comércio — passa a ser uma alternativa concreta. Trata-se de uma manobra calculada: não um rompimento definitivo com o acordo, mas um atraso que permite alinhar posições políticas e enviar um sinal de contenção a Washington, sem escancarar ruptura diplomática.
Na prática, a iniciativa revela a arquitetura clássica de uma potência em defesa dos seus alicerces. A Groenlândia figurará entre as pautas prioritárias da sessão plenária do Parlamento Europeu. À frente dos trabalhos, a Conferência dos Presidentes dos grupos (CoP) aprovou, por larga maioria, uma declaração de apoio total à Dinamarca e à ilha autônoma.
O texto aprovado é enfático: “Qualquer tentativa de minar a soberania e a integridade territorial de Copenhague e Nuuk viola o direito internacional“. A formulação foi subscrita por PPE, Socialistas, Liberais e Verdes — uma coalizão que reconstitui, momentaneamente, a maioria partidária que tem sido desfiada nos últimos meses.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento que busca restaurar equilíbrio e projetar unidade. No entanto, também expõe fragilidades: ao adiar o aval aos dazi, a UE procura não só conter o ímpeto americano sobre territórios com relevância geopolítica, mas também preservar espaço de manobra nas negociações comerciais futuras.
Em termos de Realpolitik, a jogada é dupla. Por um lado, confirma-se que Bruxelas aprendeu a não reagir apenas com retórica; por outro, demonstra-se que o bloco ainda prefere medidas calibradas em vez de confrontos abertos. É um movimento defensivo, porém ponderado — típico de uma potência que constrói uma frente diplomática enquanto rearranja as peças no tabuleiro.
Conclusão: o adiamento do voto não é um capricho procedimental, mas uma resposta medida a uma mudança abrupta no cenário internacional. A Europa, cautelosa mas resoluta, aposta em dar tempo ao tempo para consolidar uma posição comum — e, assim, preservar os alicerces da sua soberania e integridade estratégica.





















