Por Marco Severini — Bruxelas prepara um movimento estratégico para reforçar a indústria automobilística europeia. Segundo uma nova versão da proposta do Industrial Accelerator Act, vista pelo Financial Times e prevista para publicação em 25 de fevereiro, os veículos elétricos que se beneficiarem de programas estatais deverão ter pelo menos 70% de seus componentes produzidos dentro da UE (percentual calculado por preço), excluindo a bateria.
Essa exigência funcionará como gatilho para o acesso a incentivos públicos e contratos de compra governamentais. A proposta também estabelece metas de conteúdo local para o setor da construção: pelo menos 25% do alumínio e 30% dos polímeros usados em janelas e portas teriam de ser fabricados na União Europeia para que fabricantes e empreiteiros possam concorrer a subsídios e contratos públicos.
O pacote é parte de um esforço mais amplo para preservar a base manufatureira da UE, avaliada em cerca de 2,6 trilhões de euros. Em linguagem de estratégia, trata-se de reforçar os alicerces de uma arquitetura industrial abalada por anos de desindustrialização, competição asiática a baixo custo, custos energéticos elevados e os encargos decorrentes das ambiciosas políticas climáticas europeias.
Na prática, a proposta determina que novos veículos elétricos, híbridos e a células de combustível que recebam apoio estatal — seja na compra direta, no leasing por entidades públicas ou nas ajudas aos consumidores — sejam montados na UE e atinjam o patamar de 70% de componentes europeus. Além disso, componentes-chave da bateria deverão ter origem comunitária, uma tentativa de reduzir a dependência estratégica da tecnologia e das matérias-primas vindas da China.
Representantes da indústria automotiva já advertiram que a medida será desafiadora. A cadeia global de valor das baterias e dos materiais essenciais ainda está fortemente concentrada fora da Europa, sobretudo na China — um facto que torna o objetivo de curto prazo ambicioso e suscetível a tensões comerciais.
Do ponto de vista geopolítico, esta é uma jogada calculada: a Comissão Europeia procura redesenhar fronteiras invisíveis no tabuleiro das cadeias de suprimento, trocando dependência por resiliência e condicionando subsídios a critérios de origem e emissões. Ao vincular compras públicas ao desempenho climático, o ato procura também alinhar proteção industrial e metas ambientais, uma espécie de sinfonia normativa que pretende simultaneamente proteger o mercado e reduzir a pegada de carbono.
Os riscos são claros. A imposição de conteúdo local pode elevar custos, atrasar transições tecnológicas e provocar contramedidas externas. A oportunidade, porém, é igualmente concreta: atrair investimento, relocalizar produção e criar empregos qualificados na Europa, fortalecendo, em última instância, a soberania industrial do bloco.
Em suma, a proposta do Industrial Accelerator Act é um movimento decisivo no grande tabuleiro da economia global — uma tentativa de recompor a tectônica de poder industrial da UE, onde cada peça (da chapa metálica à célula da bateria) passa a contar não apenas por seu preço, mas por sua origem estratégica.






















