Por Marco Severini — A Comissão Europeia apresentou hoje a proposta do vigésimo pacote de sanções contra a Rússia, dirigindo-se de forma deliberada aos alicerces económicos que sustentam a máquina de guerra de Moscou. A iniciativa, divulgada em comunicado, chega a poucos dias do quarto aniversário da invasão da Ucrânia e deverá agora ser submetida à avaliação e aprovação do Conselho da União Europeia.
Segundo a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, enquanto a Ucrânia resiste com notável coragem no terreno, o Kremlin intensifica ataques contra civis e infraestruturas críticas, atingindo instalações energéticas e sistemas de aquecimento que deixam populações inteiras sem eletricidade em temperaturas gélidas. Para von der Leyen, tal conduta não é de um Estado interessado na paz, mas de uma potência que procura desgastar uma população inteira.
O pacote concentra-se em três eixos principais: energia, serviços financeiros e comércio. No domínio energético, a proposta introduz um proibição total de serviços marítimos para o petróleo bruto russo, medida destinada a reduzir receitas e a complicar a colocação do petróleo russo no mercado global. A Comissão propõe que esta proibição seja implementada em coordenação com parceiros alinhados, após decisão do G7, reconhecendo a natureza transnacional do transporte marítimo.
Além disso, a proposta acrescenta mais 43 navios àquilo que a Comissão descreve como a frota sombra, elevando o total identificado para 640 embarcações. Em linhas estratégicas, Bruxelas pretende dificultar a aquisição de petroleiros pela Rússia e restringir serviços essenciais — manutenção, provisão técnica e logístico — para petroleiros, navios de GNL e rompe-gelos, fragilizando projetos de exportação de gás. Essas medidas complementam o bloqueio às importações de GNL acordado no 19º pacote e o quadro regulatório do RepowerEU.
No bloco dedicado ao sistema financeiro, a Comissão propõe um segundo conjunto de medidas para estreitar o acesso da Rússia a canais de pagamento alternativos. Estão previstas sanções adicionais sobre o setor bancário, com a inclusão de mais 20 bancos regionais russos na lista de entidades sujeitas a restrições, além de medidas dirigidas a criptomoedas, plataformas de câmbio e serviços que possibilitam a criação de rotas de financiamento alternativas.
O pacote, nas palavras de von der Leyen, visa atingir precisamente o ponto de fragilidade da estratégia russa: a sua capacidade de gerar e movimentar receitas que financiam a guerra. A proposta surge num momento em que, ao mesmo tempo, em Abu Dhabi decorrem esforços diplomáticos para promover conversações de paz; a Comissão sublinha, com realismo geopolítico, que a Rússia só se sentará numa mesa de negociações com intenções genuínas se for pressionada a isso.
Von der Leyen anunciou também que estará em Kiev no dia 24 de fevereiro, juntamente com o presidente do Conselho António Costa, para as cerimónias de memória das vítimas da agressão. A presença institucional pretende sinalizar solidariedade e reafirmar a determinação europeia.
Do ponto de vista estratégico, este vigésimo pacote traduz um movimento decisivo no tabuleiro de poder: não se trata apenas de medidas punitivas, mas de um redesenho das linhas de abastecimento e das vias financeiras que sustentam a guerra. A tática europeia privilegia medidas que, em conjunto com aliados, possam criar atrito crónico nas cadeias que permitem à Rússia contornar o isolamento — uma abordagem de longo prazo que procura transformar a tectónica de influência sem recorrer a escaladas militares diretas.
O texto final dependerá da aprovação do Conselho da UE; contudo, o envio da proposta pela Comissão constitui um passo claro no fortalecimento das ferramentas europeias de pressão. Em termos práticos e simbólicos, trata-se de reforçar estruturas de contenção e de reduzir a margem de manobra de Moscou no comércio de energia e nas finanças internacionais.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional, Espresso Italia.






















