Por Marco Severini — As delegações da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Rússia encontram-se em Abu Dhabi nos próximos dias 4 e 5 de fevereiro para uma nova rodada de negociações voltadas a um possível acordo de paz, confirmaram fontes de Kiev e de Moscou. O encontro sucede o adiamento de uma cúpula trilateral que estava prevista para ontem na capital dos Emirados Árabes Unidos.
A explicação oficial do adiamento diverge: o presidente Zelensky atribuiu o recuo a tensões entre Washington e Teerã, enquanto o Kremlin alegou tratar‑se apenas de um ajuste de agenda. Permanece ambíguo o formato exato que os diálogos terão — se bilaterais ou trilaterais —, circunstância que delineará os limites táticos das conversas.
Relatórios do site Axios indicam que em Abu Dhabi estará presente o enviado norte‑americano Steve Witkoff, que tem roteiro internacional incluindo encontro em Israel com o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu. Paralelamente, no dia 31 de janeiro, o enviado russo Kirill Dmitriev encontrou‑se em Miami com funcionários dos Estados Unidos, entre eles o próprio Witkoff, sinal de que canais discretos permanecem abertos entre as capitais.
Os diálogos anteriores, também em Abu Dhabi, encerraram‑se no dia 24 de janeiro em clima qualificado como “construtivo”. O porta‑voz do Kremlin, Dmitri Peskov, declarou que os encontros ajudaram a aproximar posições em alguns pontos, embora persistam divergências substanciais: “é um processo complexo”, assinalou, com a calma de quem descreve etapas de longa duração no xadrez da diplomacia.
Na pauta imediato, as delegações deverão concentrar esforços sobre um potencial cessar‑fogo, a proteção e reconstrução das infraestruturas energéticas e o contorno do controle sobre a região do Donbass. A Rússia tem exigido, de forma reiterada, que a Ucrânia ceda a totalidade das províncias de Donetsk e Luhansk — inclusive parcelas ainda sob administração de Kiev — como condição para qualquer tratado, demanda que Zelensky tem recusado categoricamente.
Pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev mostra que 52% dos ucranianos consideram inaceitável entregar o Donbass em troca de garantias de segurança oferecidas por Estados Unidos e Europa, dado o peso simbólico e estratégico da região. Esse fator interno é um dos fundamentos que limitam a margem de manobra de Zelensky no tabuleiro das negociações.
Enquanto isso, a campanha russa contra o sistema energético ucraniano tem mantido milhões em risco durante ondas de frio, uma tática de pressão que afeta diretamente o tecido social e a capacidade governamental de responder. No dia 29 de janeiro, o presidente norte‑americano Trump disse ter pedido ao colega russo, Vladimir Putin, uma suspensão dos bombardeios às cidades ucranianas por uma semana. Moscou, no dia seguinte, afirmou que a suspensão se aplicaria apenas a Kiev e duraria até 1º de fevereiro — declaração que deixou brechas e suscitou ceticismo.
Nos dias subsequentes, a Rússia continuou a atacar infraestruturas civis em outras regiões, focalizando alvos logísticos como ferrovias. Embora a capital tenha sido poupada de ataques diretos, a imprensa ucraniana descreveu a trégua como uma “tregua que nunca existiu”. O ministro da Energia, Artem Nekrasov, anunciou que a chamada “tregua energética” terminou, apontando que regiões como Kharkiv, Sumy, Dnipropetrovsk e Cherkasy ficaram sem eletricidade em decorrência das ofensivas.
O renascimento das conversações em Abu Dhabi representa, do ponto de vista estratégico, um movimento delicado no tabuleiro: as partes testes linhas de comunicação, sondam concessões e tentam redesenhar fronteiras de influência invisíveis sem romper as peças — diplomáticas e militares — que cada uma ainda guarda. A complexidade das demandas, a pressão doméstica e as operações no terreno compõem os alicerces frágeis desta fase, em que qualquer passo mal calculado pode desfazer ganhos lentos e reabrir frentes de escalada.
Como analista, observo que o sucesso de Abu Dhabi dependerá menos de proclamações e mais da construção gradual de garantias verificáveis — um trabalho de cartógrafo: demarcar, com precisão, o que cada lado está disposto a trocar em um mapa de segurança mutuamente aceito. Sem isso, as conversas permanecerão parte de uma tectônica de poder, sujeita a novos abalos.






















