Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura, por ora, as linhas visíveis do conflito, a Rússia atacou a Ucrânia durante a noite com mais de cem aeronaves não tripuladas de ataque e um míssil balístico Iskander-M, na sequência imediata do anúncio sobre uma possível mini-tregua mediada pelos Estados Unidos.
Segundo comunicado da aeronáutica de Kiev, entre as 18h do dia 29 de janeiro e a madrugada do dia 30, foram lançados 111 drones de ataque, além de um míssil balístico Iskander-M disparado desde a região de Voronezh. O episódio ocorre poucas horas depois da declaração do presidente norte-americano Trump, que afirmou ter obtido de Moscou a disponibilidade em suspender por uma semana os bombardeios sobre alvos no território ucraniano.
O presidente Zelensky esclareceu a jornalistas, em Kiev, que não há um acordo formal de cessar-fogo assinado entre as partes. Em vez disso, Kiev trata a proposta como uma oportunidade: se Moscou interromper os ataques às infraestruturas energéticas ucranianas, o governo ucraniano se compromete a abster-se de atacar instalações energéticas russas.
Em paralelo, Zelensky informou que Moscou suspendeu o processo de troca de prisioneiros de guerra. “Os russos interromperam o processo. Não estão particularmente interessados na troca, pois não veem vantagem estratégica nisso”, disse o presidente ucraniano, em ritmo sóbrio e consciente do peso simbólico desse gesto.
Trump afirmou ter solicitado pessoalmente a Vladimir Putin que evitasse bombardear Kiev e outras cidades por uma semana, citando o “frio recorde” na região; segundo o presidente americano, Putin teria concordado. A declaração foi colocada como uma iniciativa diplomática norte-americana que, se efetivada, abriria um corredor de alívio humanitário e logístico.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um lance no tabuleiro onde cada movimento é testado na ponta do poderio militar e na arquitetura das comunicações internacionais. A alternância entre gestos de contenção e ataques massivos evidencia a natureza tática do conflito: enquanto se negocia uma suspensão pontual dos ataques aos sistemas energéticos, a capacidade de fogo permanece ativa e pronta para redesenhar, em poucas horas, a paisagem das cidades e das infraestruturas.
Para Kiev, a proposta americana representa uma janela estratégica — não um tratado definitivo — que pode reduzir, temporariamente, o impacto sobre civis e redes essenciais à sobrevivência no inverno. Para Moscou, a suspensão seletiva de hostilidades sobre determinados alvos pode funcionar como uma moeda de troca política, sem, necessariamente, comprometer objetivos mais amplos.
Resta ao cenário internacional acompanhar se a iniciativa será sustentada por mecanismos verificáveis e se as partes aceitarão, de fato, uma contenção mútua sobre alvos energéticos. No momento, no entanto, o ataque noturno com drones e o Iskander-M demonstram que os alicerces frágeis da diplomacia podem ser postos à prova por decisões estratégicas em questão de horas.
Enquanto isso, Zelensky agradeceu publicamente aos Estados Unidos e a Trump pelos esforços para interromper ataques contra as infraestruturas energéticas e reiterou a disponibilidade ucraniana para negociações e encontros que possam levar a uma paz duradoura, condicionada à eficácia e ao compromisso dos parceiros ocidentais.
Em suma, a noite seguiu como um lembrete severo de que, no tabuleiro da guerra, a tectônica de poder se move em camadas: uma trégua anunciada por altos representantes pode conviver com ofensivas que testam tanto a resistência material quanto a credibilidade política das promessas.




















