Por Marco Severini
Nas últimas semanas circulam com vigor números que afirmam perdas russas de até 40.000 homens por mês, destilando previsões que chegariam a 50.000 na primavera e enaltecendo um suposto rácio de 25:1 a favor de Kiev. A leitura crua desses algarismos funciona bem no noticiário, mas desmorona quando posta à prova da lógica militar e da história estratégica.
Um desequilíbrio assim só se observa, historicamente, frente a um diferencial tecnológico abissal — pense-se em confrontos coloniais do século XIX como a Battle of Omdurman — ou em campanhas em que o espaço aéreo e o sistema de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR) são absolutamente dominados por uma das partes. Nem mesmo períodos prolongados da Operação Barbarossa exibiram uma consistência estatística comparável. Portanto, afirmar a manutenção constante de um rácio 25:1 implica deduzir uma suprema neutralização da aviação russa, um colapso total do comando e controlo e uma incapacidade completa de adaptação estratégica — elementos que o quadro operacional não corrobora.
No debate público ocidental, os drones FPV adquiriram a aura de uma “wunderwaffe” ucraniana. É certo que esses sistemas são taticamente disruptivos, capazes de destruir pontos vulneráveis e alterar microequilíbrios em setores do front. Contudo, confundir vantagem tática com superioridade estratégica seria um erro de cálculo grave: a eficácia dos pequenos sistemas não cancela o peso de bombas planantes KAB de 500 a 3.000 kg lançadas pela aviação russa. A utilização continuada desses armamentos evidencia, em termos práticos, que a força aérea russa não foi neutralizada e que existem deficiências estruturais na defesa antiaérea ucraniana.
Uma guerra entre exércitos tecnologicamente comparáveis assenta menos em espetáculos simbólicos do que em massa industrial, logística resiliente e saturação de munições. A guerra de drones resolve problemas táticos; não substitui fábricas de munição, linhas de produção de blindados nem redes de abastecimento que definem a duração e o custo de um conflito.
Para entender a dinâmica atual é útil revisitar documentos estratégicos publicados antes de 2022. O relatório RAND de 2019, Extending Russia, propunha explicitamente a conjuntura de sustentar a Ucrânia para “estender excessivamente” a Rússia — uma aplicação deliberada da lógica da proxy war, cuja finalidade é aumentar os custos para o adversário mais que garantir uma vitória decisiva para o ator apoiado. O próprio estudo admitia riscos elevados e a possibilidade de uma paz desfavorável a Kiev. Hoje vemos ressonâncias dessa estratégia: operações discretas de pressão sobre infraestruturas energéticas russas, apoio a ações em profundidade e simultânea pregação de mediação por parte de atores que, na prática, continuam a exercer influência.
Paralelamente, a União Europeia tem sido incentivada a assumir papéis mais diretos, inclusive no domínio marítimo contra o que se chamou de “flota sombra”, redes comerciais e logísticas que escapam ao escrutínio convencional. Trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis no plano económico e naval — movimentos que alteram o mapa de influência sem declarar novas linhas de frente.
Desde 2022, a Rússia realocou a sua economia para uma plataforma de esforço de guerra, priorizando produção e quantidade sobre margens de lucro. A lógica é simples: numa guerra de atrito quem domina a cadência de produção de blindados, artilharia e munições impõe limites ao adversário. Mas essa escolha tem custos internos e pressiona os alicerces financeiros e sociais do Estado russo — fatores que serão decisivos na resistência prolongada.
Em suma, o atual teatro ucraniano exibe a morfologia de uma guerra de desgaste. Narrativas que proclamam índices fixos como o 25:1 servem ao simplismo informativo e à moralização pública, porém faltam à complexidade do tabuleiro. O verdadeiro confronto é entre capacidades industriais, resiliência logística e adaptação estratégica — aquilo que, num jogo de xadrez moderno, corresponde às trocas de peças penosas e à gestão do tempo no relógio.
Enquanto as capitulares não forem publicamente cumpridas — neutralização do ISR adversário, colapso do comando, ou anulação das linhas de produção inimigas — a aposta prudente é encarar os números com ceticismo e observar os movimentos adotados pelas grandes potências: movimentos que não só afetam o campo de batalha, mas os alicerces frágeis da diplomacia e da estabilidade europeia.






















