Por Marco Severini, Espresso Italia — A guerra na Ucrânia atravessa mais uma fase de tensão estratégica, com movimentos que evidenciam não apenas o desgaste material das linhas de frente, mas também o redesenho silencioso das prioridades dos aliados no tabuleiro internacional.
O Ministério da Defesa russo reivindicou a tomada de Yarova, povoado no norte da região de Donetsk que, no início de 2024, abrigava cerca de 900 residentes. Em contrapartida, o projeto de mapeamento Deep State, parceiro da Defesa ucraniana, em seu último relatório — datado de terça-feira — não registra esse avanço, mantendo Yarova sob controle ucraniano, a mais de três quilômetros a oeste da linha de frente. A discrepância entre declarações oficiais e mapeamentos independentes é sintomática da guerra de narrativas que acompanha os movimentos no terreno.
Enquanto isso, em círculos diplomáticos, surge um cuidado retórico para não permitir que crises concorrentes desloquem completamente o apoio à Ucrânia. O primeiro‑ministro neerlandês Mark Rutte declarou à Reuters que os aliados da OTAN continuarão a apoiar Kiev mesmo diante do agravamento do conflito no Irã. “É preciso fazer ‘e, e’ — assegurar que o apoio aos esforços ocidentais no Médio Oriente não comprometa a assistência que mantém a Ucrânia forte”, afirmou Rutte, resumindo um equilíbrio delicado entre teatros de conflito concorrentes.
Porém, a tensão material é mais abrupta do que a retórica: fontes com conhecimento direto da situação informaram à Reuters que os caças F-16 ucranianos ficaram sem um número suficiente de mísseis ar-ar por mais de três semanas, após o esgotamento das entregas dos parceiros. Segundo três interlocutores, a frota dispôs apenas de algumas unidades do AIM-9 Sidewinder para toda a esquadrilha, no período em que Moscou preparava uma campanha aérea de inverno de larga escala. Uma fonte chegou a afirmar que, por quase um mês, não havia munição adequada para equipar os jatos.
Essa carência, ocorrida entre o fim de novembro e meados de dezembro, expõe a fragilidade das defesas aéreas ucranianas, que dependem fortemente de remessas ocidentais de mísseis e sistemas. A insuficiência logística teve consequências humanitárias imediatas: centenas de milhares de civis sobreviveram ao pior do inverno sem aquecimento, eletricidade e água corrente, em grande parte por causa da intensificação dos ataques ao sistema energético ucraniano — ataques que as defesas não conseguiram repelir integralmente.
As autoridades ucranianas têm reiterado a necessidade de armamentos desde o início da invasão em grande escala, há mais de quatro anos, mas tem procurado, por prudência diplomática, evitar um embate público com a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A perspectiva de que a competição por suprimentos defensivos se acirre — dado o novo teatro de hostilidades envolvendo o Irã — torna provável que as necessidades ucranianas permaneçam elevadas no curto prazo.
Entre os elementos de geoestratégia que se destacam, há uma mudança de prioridade perceptível em Washington: relatos e fontes diplomáticas sugerem que parte do aparato norte-americano estaria mais concentrada em viabilizar e aperfeiçoar drones intercetores para defesa ucraniana do que em impulsionar negociações de paz imediatas. Trata‑se de um movimento que, no meu entendimento, reflete a lógica de um tabuleiro de xadrez em que se prioriza a consolidação de capacidades defensivas decisivas — as peças que prolongam a resistência — em vez de buscar hoje uma mesa de negociações atravancada por assimetrias militares e geopolíticas.
Em termos de equilíbrio de poder, essa preferência por soluções tecnológicas e por reabastecimento logístico pode funcionar como um alicerce temporário da diplomacia: provê concreto militar que sustenta a posição ucraniana e, ao mesmo tempo, desenha as condições sob as quais um acordo futuro teria sentido. No entanto, tal abordagem também corre o risco de aprofundar a tectônica de influência entre potências, ao transformar recursos críticos em moeda de negociação entre múltiplos teatros.
Na cartografia das próximas semanas, o que observamos é o cruzamento de duas tendências: a continuidade do apoio ocidental, sujeita a pressões concorrentes; e uma vulnerabilidade operacional real nas defesas ucranianas que só será estabilizada mediante entregas sustentadas de munições e sistemas. Trata‑se, em última instância, de decidir quais peças mover primeiro para preservação do jogo — uma decisão que terá consequências duradouras tanto no campo de batalha quanto nas mesas de diplomacia.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional para Espresso Italia.






















