Por Marco Severini, Espresso Italia
O Comitê Paralímpico Nacional da Ucrânia comunicou oficialmente que os atletas paralímpicos ucranianos irão boicotar a cerimônia de abertura dos XIV Jogos Paralímpicos de Inverno de Milano Cortina 2026, marcada para 6 de março na Arena de Verona. A decisão é um protesto direto contra a deliberação do Comitê Paralímpico Internacional (IPC) de permitir a participação de atletas da Rússia e da Bielorrússia com direito à sua própria bandeira e ao seu hino nacional.
Na nota oficial de Kiev a medida é descrita como um ato de indignação nacional face àquilo que o Comitê chama de uma escolha cínica por parte do IPC. O apelo ucraniano inclui uma exigência explícita: que a bandeira ucraniana não seja exibida durante a cerimônia de abertura se a decisão de reabilitar a presença simbólica da Rússia persistir.
A declaração ucraniana recorda que, segundo o seu entendimento, Rússia e Bielorrússia não tinham direito legal de participar integralmente das Paralimpíadas, e qualifica como vergonhosa a votação que, em setembro de 2025, abriu caminho para o retorno parcial dos dois Comitês Nacionais ao movimento paralímpico. Naquele pleito, o voto para manter a suspensão total do Comitê Paralímpico russo registrou 111 membros contrários à manutenção da suspensão e 55 a favor. Já a proposta para readmitir o Comitê russo com direitos parciais obteve 91 votos a favor e 77 contra. Para o Comitê bielorrusso, 103 votos foram favoráveis a uma suspensão parcial, contra 63 contrários.
O caso insere-se numa tensão mais ampla entre o esporte global e os tribunais esportivos. No inverno em curso, atletas russos e bielorrussos competem nos Jogos Olímpicos sob estatus de participação individual e neutra, usando a bandeira Ain e sem constarem do quadro de medalhas. Paralelamente, decisões do Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) influenciaram federações como a FIS, forçando recuos em exclusões impostas a atletas dessas nacionalidades.
Do ponto de vista estratégico, esta movimentação de Kiev é um lance calculado no tabuleiro da diplomacia esportiva. Ao boicotar um dos momentos cerimoniais mais visíveis dos Jogos, a Ucrânia procura transformar a inauguração num campo de pressão política e simbólica, expondo os alicerces frágeis da diplomacia que tentam normalizar a presença russa e bielorrussa no palco internacional do esporte. Não se trata apenas de medalhas; trata-se de quem tem direito a representar a sua nação e a legitimidade que o esporte confere aos atores estatais.
Resta saber como o IPC e os organizadores de Milano Cortina responderão. Uma solução técnica poderia mitigar o choque simbólico, mas dificilmente apaziguará uma Kiev que entende a decisão como contrária aos princípios de justiça e às regras de atribuição de vagas paralímpicas. No tabuleiro da geopolítica esportiva, o movimento ucraniano reforça que a estabilidade das relações de poder continua a ser disputada também nas arenas esportivas.






















