Por Marco Severini — A leitura fria dos números confirma o que muitos estrategistas já temiam: 2025 foi o verdadeiro annus horribilis para a Ucrânia desde o início da invasão. Em entrevista ao AGI, o diretor do Ukrainian Institute of Politics, Ruslan Bortnik, traça um diagnóstico onde a mudança de política norte-americana sob a administração Trump aparece como um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico.
Segundo a Missão da ONU para monitoramento dos direitos humanos na Ucrânia (HRMMU), em 2025 foram contabilizados 2.514 civis mortos e 12.142 feridos — um aumento de 31% em relação a 2024 e de 70% sobre 2023. Cerca de 97% dessas vítimas ocorreram em áreas sob o controle de Kiev e são atribuídas a ataques russos, num contexto marcado pelo emprego cada vez mais extensivo de armas de longo alcance. Para Iain Overton, diretor da Action on Armed Violence, trata-se de uma das violações mais difundidas do princípio da «proporcionalidade» nas guerras contemporâneas.
Do ponto de vista infraestrutural, a campanha russa contra as infraestruturas energéticas — intensificada a partir de outubro de 2025 — danificou cerca de 8,5 GW de capacidade de geração elétrica, provocando cortes prolongados e deixando milhares de famílias sem luz e aquecimento num dos invernos mais rigorosos. Em janeiro, o presidente Volodymyr Zelensky decretou estado de emergência no setor.
Bortnik relaciona o agravamento da crise humanitária também ao desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), decidido pela administração Trump. Em 2024, Kiev havia recebido mais de 5 bilhões de dólares por meio de programas da USAID, dos quais 3,9 bilhões em apoio direto ao orçamento. A retirada desse suporte direto aos mecanismos governamentais amplia a fragilidade dos alicerces sociais: «Se os padrões de vida continuarem a cair tão rapidamente, a Europa deverá se preparar para uma nova onda de refugiados», adverte o analista.
No âmbito militar, a transição de governo em Washington provocou uma ruptura estratégica. Os Estados Unidos, que por três anos foram os principais doadores, suspenderam os auxílios militares diretos e passaram a fornecer equipamentos por meio da Prioritized Ukraine Requirements List (PURL). Segundo o Kiel Institute for the World Economy, os auxílios na defesa sofreram um colapso de 99% em 2025. Para compensar esse vazio, a Europa elevou seu apoio global em 67% em relação à média de 2022–2024.
O efeito combinado, observa Bortnik, é uma redução da capacidade de Kiev para conduzir contraofensivas de grande escala: não se viram operações comparáveis às de Kherson ou Kharkiv no último ano. A postura ucraniana tornou-se prioritariamente defensiva, e a possibilidade de reconquistar territórios ocupados está em declínio. «Somente agora começou um verdadeiro negociação», afirma Bortnik, apontando, contudo, as diferenças de temperamento entre aliados: enquanto a Europa mantém uma linha de não concessões ao agressor, Washington adota um tom mais pragmático, aberto a contatos com Moscou — uma mudança que já redesenha a tectônica de poder em torno do conflito e impõe uma revisão negativa das perspectivas ucranianas.
Em termos cartográficos e estratégicos, o que se observa é um redesenho de fronteiras invisíveis: não só território físico, mas linhas de sustentação política e econômica que definem a capacidade de resistência de Kiev. Se os fluxos de ajuda externa continuarem a enfraquecer, a estabilidade regional e a gestão dos fluxos migratórios tornar-se-ão desafios imediatos para a coesão europeia.
Como analista, vejo neste movimento uma mudança de fase — um movimento decisivo no tabuleiro que não elimina a possibilidade de negociado, mas reduz as margens de manobra ucranianas e complica os equilíbrios entre parceiros. As próximas semanas, em torno do aniversário da invasão, serão um teste tanto para a diplomacia europeia quanto para a capacidade de deter o desgaste humanitário que se avoluma sobre a Ucrânia.
Marco Severini — Espresso Italia






















