Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que provisoriamente, as linhas de influência no teatro europeu, o presidente dos Estados Unidos, Trump, manteve uma conversa telefônica com o presidente ucraniano, Zelensky, segundo apuração do jornalista da Axios, Barak Ravid. No centro da interlocução esteve a possibilidade de um encontro a três envolvendo os presidentes Putin, Zelensky e Trump, ideia já mencionada pelo enviado especial norte-americano, Steve Witkoff.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, comentou a proposição em entrevista ao programa Vesti, conduzido por Pavel Zarubin: admitiu que, em tese, poderia fazer sentido que os três líderes se reunissem «apenas para concluir acordos», ou para firmar o que os americanos chamam de um «deal». Contudo, Peskov manifestou ceticismo quanto a um encontro presencial direto entre o líder russo e o presidente ucraniano, lembrando as recentes declarações de Zelensky sobre linhas vermelhas que a Ucrânia não aceitaria.
Segundo Peskov, não é necessário dissecar as declarações de Zelensky: basta recordá-las e questionar se faz sentido um encontro de alto nível enquanto o governo de Kiev mantém essa postura. Ainda assim, o porta-voz reiterou que a possibilidade de o presidente ucraniano viajar a Moscou para tratar de pontos específicos foi colocada pelo próprio presidente Putin e que o mandatário russo «cumpre sempre a sua palavra». À agência Tass, Peskov acrescentou que, no momento, «não está previsto nenhum encontro entre os presidentes Vladimir Putin e Donald Trump».
Do lado ucraniano, Zelensky informou que, durante a chamada com Trump, estiveram presentes também Steve Witkoff e Jared Kushner. Em tom agradecido, destacou o esforço intenso das equipes envolvidas: “Nossos times estão trabalhando intensamente e eu os agradeci por todo o compromisso e pelo envolvimento ativo nas negociações e nos esforços para pôr fim à guerra”.
Zelensky salientou ainda o papel das aquisições militares americanas no período recente: chamou o último inverno de «o mais difícil para a Ucrânia», mas afirmou que os mísseis e os sistemas de defesa aérea adquiridos dos Estados Unidos têm sido essenciais para superar desafios e para proteger vidas humanas.
Como analista, interpreto este episódio como um movimento de alto risco e potencial recompensa no tabuleiro geopolítico: a sugestão de um encontro trilateral funciona como oferta de negociação e simultaneamente como teste de limites — uma jogada que toca nos alicerces frágeis da diplomacia entre Moscou e Kiev. O pronunciamento de Peskov evidencia, porém, que a tectônica de poder continua distante de uma normalização rápida; enquanto as precondições políticas e narrativas públicas persistirem, qualquer reunião de alto nível permanece condicionada a acordos práticos e a concessões muito delicadas.
Em termos práticos, a proposta indica duas coisas: primeiro, que atores externos — neste caso, Washington — buscam canalizar protagonismo diplomático; segundo, que a viabilidade de um encontro depende tanto de garantias materiais (segurança, cessar-fogo localmente verificável) quanto de alterações no discurso político que hoje inviabilizam um face a face imediato entre Putin e Zelensky. Seguiremos acompanhando o desdobrar dessas comunicações com acuidade, pois cada telefonema e cada declaração funcionam como movimentos decisivos no tabuleiro de uma negociação que pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência.






















