Por Marco Severini — Em mais um movimento que redesenha linhas de confronto no tabuleiro político americano, Donald Trump publicou um vídeo na plataforma Truth que tem gerado forte repúdio. O material, com cerca de um minuto, reúne alegações infundadas sobre supostas irregularidades na contagem de votos atribuídas à empresa Dominion Voting Systems e inclui, por alguns segundos, um fotomontagem em que os rostos de Barack Obama e Michelle Obama são colocados sobre corpos de macacos, ao som de ‘In the Jungle’.
O vídeo repete a narrativa — já desmentida em múltiplas instâncias judiciais e técnicas — de que o processo de apuração teria sido interrompido em cinco Estados quando Trump estava em vantagem e, ao ser retomado, teria favorecido abruptamente o candidato democrata Joe Biden. É nesse ponto da narrativa que surge o curto inserto com a montagem dos Obama rindo, cenário de selva ao fundo, imagem que muitos descreveram como claramente racista.
Reações públicas não se fizeram esperar. O gabinete do governador Gavin Newsom classificou a ação como “comportamento desprezível do presidente” e pediu que “cada republicano o denuncie agora”. Ben Rhodes, ex-assessor sênior de segurança nacional e colaborador próximo de Barack Obama, reagiu com contundência nas redes, apontando que a posteridade deverá relembrar os Obama como figuras celebradas e estudar o governo de Trump como uma mancha na história americana.
O primeiro destaque do conteúdo nas redes foi feito pelo coletivo ‘Repubblicani contro Trump’ (Republicanos contra Trump), que possui expressivo seguimento e denunciou explicitamente a imagem como um ataque racista contra o ex-presidente e sua esposa. A denúncia ampliou o debate sobre responsabilidade das plataformas, efeitos da desinformação e os limites da expressão pública por parte de autoridades eleitas.
Do ponto de vista estratégico, o episódio deve ser lido como um movimento calculado: busca consolidar uma base mobilizada ao reutilizar narrativas de fraude eleitoral enquanto provoca o adversário e polariza o campo público. No entanto, ao empregar imagens com conotações raciais explícitas, a jogada excede a esfera da retórica política habitual e expõe o autor a críticas transversais, inclusive de aliados que ponderam os custos eleitorais e institucionais de tal escalada.
Em termos de estabilidade política, estamos diante de tectônicas de poder que afetam não só percepções domésticas, mas a imagem externa dos EUA. A utilização de símbolos raciais em uma comunicação presidencial tem potencial para corroer alicerces da diplomacia e alimentar tensões internas, numa época em que a credibilidade de instituições eleitorais e de mídia já se encontra fragilizada.
Como analista, observo que esta é uma partida em que cada lance altera o centro de gravidade do debate público. A sociedade civil, o judiciário e as plataformas digitais agora ocupam espaços decisivos para responder a um impulso que mistura desinformação e provocação simbólica. A questão essencial permanece: qual será o próximo movimento no tabuleiro e quem pagará o preço pela erosão das normas cívicas?






















