Por Marco Severini – Em movimento cuidadoso e calculado no tabuleiro internacional, o presidente americano Trump lançou um ultimato público ao Irã, afirmando que o tempo para evitar uma ação militar está se esgotando. Segundo o próprio mandatário, uma “imponente armada” com a presença do porta-aviões USS Abraham Lincoln está a caminho do subcontinente indiano e se move “rapidamente, com grande potência e determinação”.
O tom é claro: caso Teerã não aceite um pacote de exigências formuladas por Washington, os Estados Unidos não descartam um ataque. A mensagem presidencial busca exercer pressão máxima sobre os alicerces frágeis da diplomacia regional — uma tentativa de redesenhar, por coerção, a tectônica de poder no Golfo Pérsico.
Do lado iraniano, a resposta foi igualmente taxativa. Autoridades de Teerã advertiram que qualquer ação militar americana, “em qualquer nível”, seria interpretada como o início de uma guerra e desencadearia uma resposta imediata e sem precedentes. A rigidez do pronunciamento iraniano evidencia que, no limiar entre dissuasão e confronto, os riscos de escalada permanecem elevados.
Em paralelo aos movimentos de poder, o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan propôs a diplomacia como caminho de redução de tensões: ofereceu a Trump a realização de um encontro trilateral por videoconferência com o Irã, iniciativa relatada pelo jornal pró-governo Hurriyet. A ligação presidencial teria ocorrido em 27 de janeiro e, segundo a imprensa turca, o líder americano recebeu a proposta favoravelmente.
Complementando o cenário diplomático, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, planeja deslocar-se à Turquia para se encontrar com o chanceler Hakan Fidan. Araghchi deixou clara a objeção de Teerã ao que definiu como tentativas de conduzir negociações “sob a sombra da ameaça militar”: “conduzir a diplomacia por meio de intimidação não pode ser eficaz”, declarou, acrescentando que não houve recentes contatos com o enviado americano para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e que o Irã não procurou negociações neste momento.
Fontes consultadas pela agência Reuters indicam que, internamente, a Casa Branca avalia operações limitadas que poderiam visar a liderança iraniana e as forças de segurança, com o objetivo explícito de catalisar a volta de protestos antigovernamentais às ruas. Do lado israelense, entretanto, analistas e fontes oficiais demonstram ceticismo: uma campanha aérea isolada dificilmente produziria mudança de regime em Teerã, observa uma fonte israelense.
Em suma, assistimos a um jogo de múltiplas camadas — realinhamentos navais, comunicações presidenciais e propostas de mediação regionais — que compõem um tabuleiro no qual cada movimento pode provocar uma resposta desproporcional. A urgência verbal de Trump e o deslocamento do grupo de ataque liderado pelo USS Abraham Lincoln representam um sinal claro de intenção, mas não garantem que a coerção leve ao desfecho desejado por Washington.
Como diplomata da informação, cabe observar: há sempre uma alternativa menos arriscada e mais duradoura do que a imposição pela força — a reconstrução de canais de negociação e a arquitetura de segurança regional, cujo alicerce deveria incluir garantias verificáveis sobre a contenção do programa nuclear. Sem isso, o risco é que o movimento decisivo no tabuleiro resulte em fronteiras invisíveis redesenhadas pela violência e não por acordos.






















