Em anúncio publicado na sua rede Truth, o presidente dos EUA declarou: “Um grande honra ter acabado de assinar, no Salão Oval, novos dazis globais de 10% sobre todos os países”. A medida, segundo o comunicado presidencial, entrará em vigor à meia-noite de 24 de fevereiro e terá duração de 150 dias.
De acordo com o despacho, as novas tarifas não incidirão sobre uma larga gama de produtos, incluindo minerais essenciais e bens já sujeitos a tributos separados que, segundo a Casa Branca, não foram afetados pela decisão da Corte Suprema.
Horas antes da publicação no Truth, o presidente fez uma contundente conferência de imprensa na Casa Branca em que criticou com severidade a rejeição dos seus mecanismos tarifários por parte do tribunal mais alto. Visivelmente irritado, Trump não poupou qualificativos pessoais aos magistrados, chamando-os de “loucos” e “ridículos” e acusando-os de terem cedido a “interesses estrangeiros” – numa referência direta à China.
Na sua leitura, a sentença é apenas o início de uma batalha jurídica que se estenderá: “Das consequências dessa decisão se discutirá nos tribunais pelos próximos 5 anos”. Afirmou ainda que os membros da Corte que votaram contra o seu método de taxas deveriam “envergonhar-se” e adiantou que a administração trabalhará para adaptar os instrumentos legais a fim de “continuar a arrecadar ainda mais dinheiro do que antes”.
Para justificar a nova onda protecionista, o presidente apresentou as tarifas como uma alavanca de segurança e política externa: segundo ele, as medidas tarifárias contribuíram para a resolução de cinco das oito crises bélicas geridas por sua administração, incluindo tensões entre potências nucleares como Índia e Paquistão. Acrescentou também que as tarifas foram empregadas contra exportadores de Fentanyl, reduzindo a entrada da droga no país.
Um ponto central da crítica de Trump à Corte Suprema foi a omissão sobre o destino dos montantes já arrecadados pela administração: “Tardaram meses para redigir essa sentença e nem sequer abordaram o tema dos reembolsos”, disse o presidente, referindo-se às receitas bilionárias obtidas por meio das tarifas. “Tínhamos centenas de milhões de dólares em receitas. Agora o que acontece com esse dinheiro?” A seu ver, a ausência de orientação clara criará anos adicionais de litígios: “Bastava uma frase: ‘fiquem com o dinheiro ou devolvam’.”
Sobre a reação internacional, Trump afirmou que rivais comerciais dos EUA se mostram em êxtase: “Os países que nos iludem estão em festa, dançando nas ruas” — mas prometeu que a celebração será efémera e que recorrerá a “métodos mais fortes” para restaurar sua agenda econômica.
Análise estratégica (Marco Severini): este movimento é um lance calculado num tabuleiro complexo. Assinar uma tarifa execuiva de 10% enquanto simultaneamente acusa a Corte e invoca ameaças externas é um gesto que redesenha linhas de influência invisíveis: combina extração de recursos fiscais com pressão geopolítica. A administração procura consolidar receitas e sinalizar a parceiros e rivais que os alicerces da diplomacia comercial americana permanecem maleáveis. Contudo, ao transformar a política tarifária em campo de batalha institucional, cria-se uma tectônica de poder que produzirá incertezas para mercados, cadeias de abastecimento e aliados. Em termos jurídicos, a promessa de litígios prolongados é um convite a um longo jogo — um movimento de torre e bispo conciliado, por ora, com um risco elevado de escalada retaliatória.
Em suma, trata-se de um ato executivo com efeitos imediatos e consequências duradouras: aumento de tensão com adversários comerciais, volatilidade nos mercados e uma nova rodada de contencioso que testará os limites entre prerrogativa executiva e supervisão judicial.






















