Por Marco Severini – Espresso Italia
Em uma declaração carregada de reprovação institucional, o presidente norte-americano Trump qualificou como “profundamente decepcionante” a decisão da Corte Suprema que derrubou parte de suas medidas tarifárias. Em tom grave, o mandatário afirmou sentir-se “envergonhado por certos membros da Corte” e acusou juízes de falta de coragem para fazerem “o que é certo pelo País”.
Na conferência de imprensa pós-decisão, Trump foi além do desapontamento retórico: sustentou que a sentença, embora contrária às suas intenções, fortaleceu e clarificou a capacidade presidencial de regular o comércio e impôr tarifas. Em uma das frases mais duras, afirmou que a decisão “lhe conferiu o direito indiscutível de destruir países estrangeiros” — uma declaração que ilustra não apenas a intensidade da reação, mas o redimensionamento das opções executivas que a Administração pretende explorar.
O presidente agradeceu explicitamente aos juízes que votaram em dissenso — Thomas, Alito e Kavanaugh — elogiando sua “força, sabedoria e amor pelo país”. Paralelamente, lançou acusações sobre influências externas: disse acreditar que a Corte Suprema foi afetada por interesses estrangeiros e por um movimento político que, em sua avaliação, tem influência maior do que o público imagina.
Em observações que mobilizam a retórica do confronto econômico, Trump descreveu países que, segundo ele, teriam “fraudado” os Estados Unidos por anos e que agora estariam “dançando nas ruas” com a decisão judicial — advertindo, porém, que essa celebração não duraria. “As influências estrangeiras têm muito poder sobre a Corte, seja por medo, respeito ou amizades”, disse, sem fornecer evidências concretas, mas deixando claro o diagnóstico de uma tectônica de poder que ele pretende contrariar.
Na resposta prática, o presidente anunciou a intenção de recorrer a alternativas executivas para recompor a política tarifária derrubada pela Corte. Entre essas opções, destacou a utilização de um conjunto de poderes comerciais conhecido como Seção 122, com a qual pretende impor uma tarifa global de 10% sobre todos os produtos. Segundo ele, as tarifas existentes invocadas sob a Seção 232 e a Seção 301 permanecem vigorosas e aplicáveis.
Trump informou que assinará ordens executivas para restaurar, na prática, as medidas tarifárias rejeitadas pela Corte, evocando múltiplas autoridades legais como base. Prometeu que as alternativas administrativas permitirão à Administração arrecadar ainda “mais dinheiro” — projetando a coleta de “centenas de bilhões” para demonstrar o que chamou de a irracionalidade da decisão judicial.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: ao transformar uma derrota judicial em justificativa para ampliar o recurso a poderes executivos, a Casa Branca redesenha as fronteiras invisíveis da política comercial norte-americana. É uma manobra que visa manter a pressão sobre parceiros comerciais e reassentar os alicerces da diplomacia econômica americana, mesmo que isso signifique tensionar os mecanismos jurídicos que tradicionalmente contêm o alcance presidencial.
Enquanto o episódio se desenrola, permanece a questão dos equilíbrios institucionais e das repercussões econômicas concretas: tarifas globais têm impacto direto sobre cadeias de suprimento, inflação e relações multilaterais. A Administração Trump, diante da rejeição judicial, opta por reinterpretar o tabuleiro e seguir adiante — um movimento estratégico que exigirá, nas próximas semanas, tanto habilidade diplomática quanto resistência política.






















