Marco Severini — Em um movimento que combina cálculo tático e sinalização política, a administração Trump anunciou a retirada imediata de 700 agentes federais do município de Minneapolis, reduzindo o contingente total de ICE e Border Patrol de 3.000 para 2.300. A decisão, comunicada pelo coordenador dos assuntos de fronteira Tom Homan — o chamado “czar” das políticas migratórias — é atribuída a um “aumento significativo” da cooperação entre autoridades estaduais e federais, incluindo um número sem precedentes de condados envolvidos na coordenação de transferências de alvos migratórios a partir de cadeias municipais.
Homan afirmou, em coletiva, que o menor número de agentes federais responde diretamente a um ambiente mais seguro e à assunção de responsabilidades por parte de autoridades locais. “Dado esse aumento de colaboração sem precedentes… anuncio, com efeito imediato, que retiraremos 700 pessoas a partir de hoje”, declarou, posicionando o gesto como um ajuste de recursos condicionado ao comportamento do governo estadual do Minnesota.
Ao mesmo tempo, a manobra tem um claro caráter de pressão política: a mensagem é que a presença federal é negociável e que a redução de forças será mantida enquanto houver cooperação. Homan chegou a dizer que aqueles que protestam contra a política federal deveriam “ir ao Congresso” para alterar a legislação — um realismo institucional que lembra o movimento de uma peça-chave num tabuleiro de xadrez, onde o ganho posicional se converte em alavanca política.
O episódio também mostrou contradições públicas do próprio presidente. Após declarações recentes em que deu a entender que a retirada poderia ser considerada em algum momento, Trump chegou a afirmar que o ICE não deixaria o Minnesota. A volatilidade retórica foi combinada, posteriormente, com um post na plataforma Truth, no qual o presidente descreve uma longa e productiva conversa telefônica com o presidente Xi da China e anuncia uma viagem marcada para abril.
Segundo Trump, a conversa abordou temas sensíveis como comércio, defesa, Taiwan, a guerra entre Rússia e Ucrânia, a situação no Irã, e negócios energéticos e agrícolas — com menção a aquisições chinesas de petróleo, gás e produtos agrícolas, incluindo soja (com números citados de 20 milhões de toneladas na temporada corrente e um compromisso de 25 milhões para a próxima). Também foram citadas entregas de motores aeronáuticos e outros pontos de cooperação econômica. O tom do relato presidencial foi de otimismo: um esforço de reconstrução de canal diplomático que, na ótica da Casa Branca, justifica o desenrolar de uma visita de alto nível.
Do ponto de vista estratégico, dois vetores se articulam. Internamente, a redução de 700 agentes é uma manobra de redistribuição de recursos e de delegação de responsabilidades às jurisdições locais, ao mesmo tempo em que funciona como instrumento de pressão política para mudanças legislativas. Externamente, o anúncio da viagem a Pequim e a ênfase no diálogo com Xi revelam uma tentativa de equilibrar a agenda doméstica de segurança com uma diplomacia de alto impacto: um redesenho de fronteiras invisíveis entre política interna e relações internacionais.
Como analista, vejo nessa sequência uma peça do tabuleiro onde o governo testa tanto a resiliência das instituições estaduais quanto a capacidade de traduzir ganhos diplomáticos em vantagens comerciais e tecnológicas. A tectônica de poder em jogo demonstra que decisões aparentemente administrativas — como a retirada de agentes federais — têm efeitos multiplicadores no front político e geopolítico.
Por fim, vale notar o uso instrumental de narrativas e evidências públicas (como vídeos envolvendo ativistas locais) para sustentar decisões federais. Esse uso calcado de imagens e comunicações públicas tem sido frequente na conjuntura atual: uma peça de pressão que, estrategicamente, busca consolidar posição antes de movimentos mais decisivos no tabuleiro internacional, como a viagem a China anunciada para abril.






















