Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura símbolos no centro do tabuleiro político, a administração Trump determinou a retirada da bandeira do Pride do Stonewall National Monument, o primeiro monumento federal dedicado aos direitos LGBT nos Estados Unidos. A ação, de teor estritamente simbólico, reverbera como um lance calculado sobre as fragilidades da diplomacia interna entre governo federal e autoridades locais.
A justificativa oficial apoiou-se numa diretriz assinada em janeiro pela diretora do National Park Service, Jessica Parks, que estabelece que, em monumentos nacionais, podem ser hasteadas apenas bandeiras americanas, militares ou de nações tribais. Foi com base nesse dispositivo que o símbolo do movimento LGBTQ+ foi removido de onde historicamente se considera ter nascido a mobilização pelos direitos da comunidade em solo americano.
A reação pública e política em Nova York foi imediata e contundente. O prefeito Mamdani afirmou estar “ultrajado” com a remoção e escreveu em X que “New York é o lugar de nascimento do moderno movimento pelos direitos LGBTQ+ e nenhum ato de apagamento poderá mudar ou silenciar essa história”.
O líder da bancada democrata no Senado, Chuck Schumer, acrescentou um tom de promessa coletiva: “Se há algo que sei sobre este novo esforço de reescrever a história, de semear divisão e discriminação, é isto: a bandeira voltará; os nova-iorquinos farão com que ela volte”.
Do lado institucional local, o presidente do borough de Manhattan, Brad Hoylman-Sigal, anunciou que trabalha para restituir já na manhã seguinte a bandeira do Pride, mesmo diante da possibilidade de impedimento por agentes federais. “Podemos ser barrados, podem haver agentes federais para impedir, mas certamente o faremos no espírito de Stonewall”, declarou.
Este episódio não é isolado. Em fevereiro do ano anterior, o National Park Service já havia removido qualquer referência a pessoas transgênero e queer da página oficial relativa ao Monumento Stonewall — que engloba o parque ao redor do antigo Stonewall Inn, no Greenwich Village. Em 2016, o presidente Barack Obama havia designado o local como monumento nacional, destacando que “nossos parques nacionais devem refletir por completo a história do país, sua diversidade e a singularidade do espírito americano”.
Enquanto analista, observo esta decisão como um movimento estratégico: não se trata apenas de uma bandeira no mastro, mas de um reposicionamento simbólico no mapa da influência cultural. É um lance que busca redesenhar, por meio de normas administrativas, a arquitetura dos símbolos públicos — um redesenho de fronteiras invisíveis que afetará percepções e alianças.
Prevê-se, portanto, uma sequência previsível de resistência local e mobilização política. Assim como em um tabuleiro de xadrez, uma retirada simbólica pode forjar contra-ataques coordenados capazes de transformar uma jogada tática em derrota política para quem a executou. A disputa sobre o Stonewall transcende o objeto físico: trata-se da hegemonia narrativa sobre a memória e os direitos civis no território americano.
Em termos práticos, a próxima jogada será decidida entre escritórios municipais, ativistas e instâncias federais — e o desfecho terá implicações para a estabilidade das relações entre os diferentes níveis de governo e para a percepção internacional sobre a proteção dos direitos civis nos EUA.

















