Por Marco Severini — Em mais um movimento de alto impacto geopolítico, o presidente Donald Trump recusou publicamente a ideia de uma extensão dos compromissos bilaterais previstos no tratado New START entre Estados Unidos e Rússia. A declaração, publicada em sua plataforma Truth, marca um desdobramento relevante na arquitetura global de controle de armamentos.
O acordo, que tinha por objetivo limitar e verificar os arsenais estratégicos nucleares das duas potências, expirou na data prevista. Moscou havia proposto uma prorrogação por seis meses, com o objetivo de manter as limitações existentes enquanto se negociava um novo instrumento. Segundo o Kremlin, a proposta ficou sem resposta formal de Washington; o gesto russo buscava preservar os mecanismos de transparência e reduzir riscos no curto prazo.
No entanto, Trump sinalizou que prefere mobilizar especialistas americanos para formular um “novo tratado, melhorado e modernizado” — uma abordagem que, na prática, rejeita a extensão temporária e propõe um redesenho mais ambicioso das regras do jogo. “Em vez de prorrogar o New START (um acordo mal negociado pelos Estados Unidos que, além disso, vem sendo gravemente violado), devemos fazer com que nossos especialistas nucleares trabalhem em um novo tratado”, escreveu o presidente.
O mandatário também aproveitou o pronunciamento para enfatizar seu papel na reconstrução das capacidades militares americanas. Citou, por exemplo, a renovação de forças convencionais e nucleares, a criação e fortalecimento da Força Espacial e a modernização de plataformas navais — afirmações destinadas a sublinhar a capacidade de dissuasão como elemento central da posição de Washington.
Relatos da imprensa americana, incluindo a Axios, indicaram que enviados ligados ao presidente, como Steve Witkoff e Jared Kushner, teriam discutido a prorrogação do pacto com interlocutores russos durante conversações sobre a Ucrânia em Abu Dhabi. A postura pública de Trump, porém, parece recusar qualquer acordo de continuidade sem substituição por um novo quadro jurídico.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento que altera temporariamente os alicerces da diplomacia sobre armas nucleares: recusar a prorrogação equivale a retirar uma peça de segurança no tabuleiro, com potencial para aumentar incertezas até que novas negociações sejam realizadas. Há riscos claros — redução de transparência, aumento de tensões e possibilidade de corrida armamentista —, mas também a intenção declarada de obter um instrumento considerado mais adaptado às tecnologias e realidades contemporâneas.
Não está explícito se, durante o interregno proposto pela Rússia, Washington manterá de fato o respeito aos termos já vencidos do tratado. A indefinição acentua a necessidade de contato diplomático contínuo, porque a estabilidade estratégica não se reconstrói em silêncio: exige diálogo técnico, verificação mútua e, sobretudo, confiança — itens que hoje parecem frágeis neste tabuleiro internacional em movimento.
Em suma, a decisão anunciada por Trump encerra uma fase e convoca outra: ou se volta à contenção familiar do New START, mesmo que temporária, ou se tenta um redesenho que poderá reconfigurar a tectônica de poder nuclear para os próximos anos.






















