Donald Trump recusou o convite do presidente francês Emmanuel Macron para participar de uma reunião do G7 em Paris e, numa longa coletiva de imprensa na Casa Branca marcada pelo tom assertivo do chefe de Estado, delineou uma narrativa que mistura cálculo geopolítico e defesa de medidas domésticas de segurança.
Ao comentar a relação com o líder francês, Trump minimizou o atrito: “Emmanuel não ficará lá por muito tempo, é meu amigo, é uma boa pessoa, eu gosto do Macron, mas ele não ficará por muito tempo”. A declaração faz referência ao término do mandato de Macron, previsto para 2027, e revela o horizonte temporal com que o presidente norte-americano interpreta o tabuleiro político europeu.
Sobre a Groenlândia, tema que voltou a emergir como peça num jogo estratégico de grande alcance, Trump afirmou: “Encontraremos algo que deixe a NATO feliz e os EUA felizes”, acrescentando que, ao dialogar com os groenlandeses, eles “ficarão contentes” com o plano de anexação. Quando questionado até onde estaria disposto a ir para assegurar a ilha, respondeu enigmaticamente: “vocês irão descobrir”. É uma jogada típica de quem posiciona uma proposta como ameaça velada e reserva, ao mesmo tempo, margem de negociação.
Sobre as relações bilaterais mais amplas, o presidente disse não ter falado recentemente com Macron e com o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, mas ressaltou que acredita manter bom entendimento com ambos. “Eles me tratam bem quando estou presente; quando não estou, tornam-se um pouco bruscos”, afirmou, numa nota que mistura ironia com cálculo diplomático.
No início da sessão, Trump exibiu fotografias de imigrantes detidos em operações do ICE, classificando-os como “os criminosos mais perigosos do mundo”. O gesto teve dupla função: reforçar a narrativa de segurança interna e amortecer críticas sobre abusos cometidos por agentes de imigração. Reconheceu, contudo, que “o ICE pode errar”, sem mencionar explicitamente casos concretos de violência, como o assassinato de Renee Good em Minneapolis, que tem alimentado as polêmicas.
Ao tratar do episódio em Minnesota, o presidente afirmou compreender a gravidade do homicídio, mas sugeriu a presença de “agitadores pagos” e qualificou manifestações como ações profissionais, não espontâneas. “Só em Minnesota temos 10 mil criminosos”, afirmou, num esforço retórico para justificar operações de fiscalização mais amplas.
Na frente econômica, Trump voltou a reivindicar que os Estados Unidos “têm a melhor economia da nossa história”, posicionando esse argumento no centro da sua legitimidade política. No campo jurídico-institucional, pressionou a Corte Suprema a confirmar a legalidade de tarifas — decisão que, segundo ele, é crucial para a “segurança nacional”.
Em tom mais pessoal, o presidente comentou sobre o Prêmio Nobel da Paz, dizendo que uma pessoa identificada como Maria Machado teria afirmado que ele “não merecia” o Nobel. Em resposta, reiterou que encerrou conflitos: “Deveria ter um Nobel por cada guerra que eu concluí”. A referência mistura reivindicação de macho de Estado com narrativa de gestor de crises.
Como analista que observa o movimento das peças no tabuleiro internacional, vejo nesta sequência de declarações um padrão: Trump afasta um convite multilaterial, projeta uma ambição territorial estrategicamente formulada sobre a Groenlândia, e simultaneamente reforça a narrativa de segurança interna com provas visuais e apelos à ordem. É um redesenho de fronteiras invisíveis — diplomáticas, políticas e retóricas — que visa consolidar posições no curto prazo enquanto testa reações no teatro transatlântico.
Em termos práticos, a mistura entre bravata e reserva — o “vocês irão descobrir” — funciona como uma peça de xadrez: deixa o oponente incerto, força movimentos de reação e abre espaço para negociações a portas fechadas. A estabilidade das relações de poder depende, agora, de como os aliados reagirão à proposição sobre a Groenlândia e de que modo será administrada a pressão doméstica sobre instituições como o ICE e a Corte Suprema.
Marco Severini | Espresso Italia






















