Donald Trump reiterou, em entrevista à Fox News, que os Estados Unidos “nunca precisaram da OTAN”, minimizando o papel da aliança mesmo após a morte de centenas de soldados aliados no Afeganistão após o 11 de setembro. “Não tivemos necessidade deles. Nunca precisamos pedir nada”, afirmou o ex-presidente, acrescentando com um sorriso que as tropas amigas “foram para o Afeganistão, mas ficaram um pouco atrás, um pouco longe da linha de frente”.
No mesmo discurso em Davos, onde se encontrou com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, Trump lançou uma mensagem direta a Vladimir Putin: “Esta guerra deve acabar”. O encontro com o líder ucraniano, segundo o ex-presidente, foi “bom” e ele disse aos jornalistas que “veremos como isso vai terminar”. “Todos querem o fim da guerra”, acrescentou, numa tentativa de posicionar-se como mediador de superfície num tabuleiro já repleto de movimentos táticos.
Paralelamente, Trump disse estar “muito satisfeito” com um entendimento alcançado com o secretário-geral da OTAN, identificado por ele como Mark Rutte, relativo à Groenlândia. “Teremos acesso total”, afirmou. “Os detalhes ainda estão em negociação, mas, de facto, é acesso total. Não há prazo.” O ex-presidente também mencionou que um “pedaço” do Golden Dome estará na ilha, argumento estratégico: “é muito importante porque tudo passa por ali acima. Se os maus começarem a disparar, tudo passa pela Groenlândia”. Garantiu, portanto, que “conseguimos tudo o que queremos e de graça”.
Em reação, o comandante supremo da OTAN para a Europa, general Alexus Grynkewich, declarou que a aliança está pronta a planear, se for solicitada, uma missão para proteger o Ártico. “Ainda não planejámos nada. Não recebemos orientações políticas para a retirada”, disse o general após reunião dos líderes da aliança. Grynkewich afirmou que a planificação ainda não começou, embora a prontidão exista; não há exercícios previstos na Groenlândia no futuro imediato, mas a OTAN manterá exercícios agrados no Ártico conforme o calendário já estabelecido. O comandante sublinhou a solidez institucional: “Continuamos fortes, unidos e prontos”, minimizando impactos nas coesões entre as 32 nações.
Num tom mais duro, Trump também lançou um novo aviso à Europa financeira: se os países europeus começarem a vender ativos americanos — ações e títulos —, haveria “pesadas retaliações”. Questionado por Maria Bartiromo sobre o receio de que empresas europeias vendessem os milhares de bilhões que detêm em ativos dos EUA, Trump respondeu: “Se o fizerem, nós retribuiremos. Temos todas as cartas na mão”.
Como analista com décadas de leitura estratégica, vejo esses pronunciamentos como movimentos num tabuleiro de xadrez onde os alicerces da diplomacia são testados. A afirmação de desprezo pela OTAN contrasta com a busca de garantias sobre a Groenlândia, um espaço de projeção geopolítica no Ártico cuja importância vem crescendo na tectônica de poder global. A promessa de “acesso total” e a menção de equipamentos sensíveis sobre a ilha remetem a uma tentativa de redesenhar, sem aviso explícito, fronteiras de influência.
Ao mesmo tempo, a chamada ao fim da guerra na Ucrânia e a reunião com Zelensky funcionam como um gesto público de contenção, equilibrando pressão e oferta de mediação. O aviso contra vendas de ativos americanos é a carta económica no bolso: um movimento duro que visa preservar vantagens estruturais num momento em que alianças e interesses estão em mutação.
Em suma, estamos perante uma série de jogadas coordenadas — diplomáticas, militares e económicas — que visam reposicionar os Estados Unidos num teatro global em mutação. A reação da OTAN e dos aliados a estes passos definirá se os alicerces da aliança permanecem firmes ou se haverá um redesenho das linhas de influência.





















