Donald Trump, no seu discurso sobre o Estado da União, delineou com clareza a postura norte-americana frente ao Irã, descrevendo-o como o “patrocinador número um do terror” e reafirmando que os Estados Unidos não permitirão, em hipótese alguma, que Teerã possua uma arma nuclear.
Na fala, que combinou advertência e abertura tática, o presidente afirmou que o regime iraniano é composto por “gente terrível” e referiu-se às acusações internas de repressão, citando a morte de cerca de 32 mil manifestantes — uma cifra que serviu para embasar sua narrativa sobre a natureza do regime e a urgência de contenção internacional.
Ao mesmo tempo, Trump reconheceu que existem conversações em curso: “agora estamos negociando, eles querem um acordo, mas não terão nunca uma arma nuclear”, declarou, sinalizando que Washington busca um equilíbrio entre coerção e diplomacia. Esta dupla velocidade — falar alto no palco enquanto mantém canais de negociação abertos — lembra um movimento calculado no tabuleiro: afirmar um limite absoluto enquanto se preserva espaço para acordos que restrinjam capacidades estratégicas adversárias.
O presidente também chamou atenção para o avanço do programa balístico iraniano. Segundo sua exposição, o Irã já desenvolveu mísseis capazes de ameaçar a Europa e bases militares americanas no exterior, e estaria trabalhando em vetores que possam, em breve, alcançar solo estadunidense. Esta descrição projeta um redesenho de ameaças que transcende fronteiras regionais, exigindo, na visão da administração, uma resposta integrada entre aliados e parceiros.
Importa frisar que, apesar do tom firme, Trump deixou clara sua preferência por “uma solução diplomática” com Teerã. Esse posicionamento reafirma uma abordagem de Realpolitik: manter a declaração de máximos inegociáveis — a proibição de uma arma nuclear iraniana — enquanto se busca, por vias negociais, converter capacidades militares em garantias verificáveis.
Do ponto de vista estratégico, temos aqui um jogo de xadrez geopolítico. A administração americana articula sanções, dissuasão militar e diplomacia como peças complementares para fortificar os alicerces frágeis da ordem não proliferativa. A referência pública a números de mortos e à ameaça balística funciona como um instrumento de legitimação doméstica e internacional para medidas futuras, criando uma narrativa que justifica pressões econômicas e políticas mais intensas contra o regime iraniano.
Numa perspectiva de longo prazo, a questão nuclear iraniana continua a ser uma das tectônicas de poder que redesenham zonas de influência no Oriente Médio e além. A exigência americana de impedir qualquer avanço para a capacidade nuclear militariza o discurso, mas também abre uma janela para mecanismos de verificação multilaterais que poderiam, se bem arquitetados, estabilizar a região sem recorrer exclusivamente à coerção.
Em suma, o discurso de Donald Trump combina advertência, relato de ameaças e uma porta — ainda que hermeticamente guardada — para a diplomacia. É um movimento decisivo no tabuleiro estratégico, cujo desfecho depende agora da resposta de Teerã, do engajamento europeu e da capacidade dos atores internacionais de construir garantias duráveis contra a proliferação.






















