Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance tenso em um tabuleiro de xadrez diplomático, o presidente Donald Trump afirmou não estar satisfeito com o curso das negociações com o Irã, mas manteve aberta a janela do diálogo, sem, contudo, afastar a hipótese de um ataque militar. Segundo declarações coletadas antes de embarcar no Marine One, Trump reclamou que Teerã não aceita a exigência que Washington considera inegociável — que o Irã diga explicitamente “sem armas nucleares” — e sublinhou não ter tomado uma “decisão final” sobre possíveis ações militares, prevendo novas conversas nas próximas horas. “Quero um acordo. Quero evitar uma solução militar, mas às vezes é necessário”, disse o presidente.
O cenário ao redor dessas declarações já apresenta sinais claros de tensão que alimentam o receio de uma escalada. Diversas companhias aéreas, incluindo a Turkish Airlines e operadores iranianos, cancelaram voos noturnos entre Istambul e Teerã e suspenderam conexões para Tabriz, citando ameaças de ataques por parte dos Estados Unidos.
Na arena diplomática, o ministério das Relações Exteriores do Omã — atuando como mediador — reuniu-se com o vice-presidente americano, JD Vance, para atualizar os avanços e reiterou que a paz permanece alcançável. Apesar desse canal, governos por todo o mundo têm recomendado que seus cidadãos deixem a região ou adiem viagens não essenciais. A Itália pediu formalmente aos seus nacionais no Irã que retornem e confirmou o repatriamento do pessoal não essencial da embaixada em Teerã, ampliando alertas também para Iraque e Líbano.
A Alemanha fez apelo semelhante, desaconselhando deslocamentos à Israel e a Jerusalém Oriental, por temor de que um ataque ao Irã provoque uma conflagração regional. Os Estados Unidos autorizaram a saída do pessoal não essencial da embaixada em Jerusalém, enquanto o secretário de Estado – anunciado como Marco Rubio na cobertura original – é esperado em visita a Israel para tratar especificamente da questão iraniana. No terreno, o reforço militar norte-americano no Oriente Médio é o mais significativo das últimas décadas, com o deslocamento de dois porta-aviões, entre eles a USS Gerald Ford, nas proximidades da costa israelense.
O Reino Unido também reposicionou parte de seu pessoal em Tel Aviv e retirou equipes do Irã; a China aconselhou seus cidadãos a deixarem o país “o mais cedo possível”. As nuances dessas movimentações têm um caráter tanto preventivo quanto simbólico: deslocar peças do tabuleiro sem, ainda, promover um confronto aberto.
No polo das negociações, as conversas indiretas mediadas por Omã são vistas como a última possibilidade tangível para evitar a guerra, mas permanecem frágeis. Washington insiste em uma renúncia total ao enriquecimento de urânio e em limites ao programa balístico iraniano — demandas definidas por Teerã como linhas vermelhas. A Agência Internacional de Energia Atômica marcou novas discussões técnicas em Viena, pedindo cooperação urgente do Irã, enquanto a situação dos estoques de urânio altamente enriquecido segue incerta.
O impacto econômico já é visível: o preço do petróleo registrou forte alta, refletindo o receio dos mercados diante da possibilidade de um choque geopolítico. Em termos estratégicos, assistimos a um redesenho de fronteiras invisíveis e a um teste dos alicerces frágeis da diplomacia. As próximas horas serão decisivas; neste tabuleiro de alta tensão, cada movimento — político, militar ou econômico — pode redefinir a tectônica de poder na região.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.






















