Marco Severini — Em um movimento que mistura lógica comercial rudimentar e cálculo estratégico, Donald Trump transformou novamente a Groenlândia em peça central de um tabuleiro geopolítico em movimento. O episódio não é apenas retórica de campanha: é um teste de poder que revela fragilidades e opções na arquitetura contemporânea das relações internacionais.
Em suas publicações na rede social Truth, o ex-presidente abriu o leque para ameaças tarifárias e proposições de compra que beiram o simbólico e o coercitivo — “10% hoje, 25% amanhã”, segundo a narrativa propagada. Não se trata apenas de comércio; é uma demonstração de força fiscal, uma alternativa ao uso direto da força: pagar, comprar ou penalizar. No jargão de diplomacia dura, um movimento posicional que visa redesenhar espaços de influência sem disparar um só projétil.
As reações em Copenhague e em outros centros europeus mostram como os alicerces da diplomacia ainda são frágeis diante de impulsos unilaterais. Manifestantes em frente a representações dinamarquesas entoaram “Make America Go Away”, enquanto líderes como Macron e figuras do espectro político britânico manifestaram condenação pública. Em Bruxelas, a UE convocou uma reunião de emergência: vinte e sete capitais tentando manter coesão enquanto o relógio geopolítico avança.
No plano interno europeu, a cena italiana se evidencia por sua ambivalência: silêncio tático de alguns, reações contidas de outros. Partidos e ministros trocam sinais, mas a lição é clara — quando um aliado estratégico altera as regras do jogo, nenhum Estado fica efetivamente imune. A OTAN, por sua vez, encontra-se momentaneamente sem roteiro para responder: o Ártico converte-se no novo território de disputa, não como Far West bélico, mas como uma plataforma de influência econômica e logística.
O que está em jogo, na verdade, é muito além da compra hipotética de um território. É a tentativa de reordenar cadeias de suprimento, controlar rotas emergentes e afirmar precedência em recursos e posicionamento estratégico. Trump não invade; prefere comprar, taxar e reorganizar a geografia das vantagens — a versão mercantilizada de um grande jogo. Se a Europa não interpretar este episódio como teste de submissão ou de vontade política, poderá encontrar-se reduzida a espectadora de rearranjos que afetarão sua segurança e acesso estratégico ao norte.
Como analista, vejo esse episódio como um movimento decisivo no tabuleiro: rápido, disruptivo e destinado a sondar respostas. A Groenlândia não é apenas um cubo de gelo no mapa; é um espaço que simboliza um eixo de influência em formação. A prudência exige que os Estados europeus e as alianças estratégicas trabalhem para transformar a reação imediata em políticas duráveis — reforçando laços, clarificando interesses e reconstruindo alicerces confiáveis da diplomacia.
Em resumo: o gesto público do ex-presidente é menos um acontecimento isolado do que um convite (ou imposição) para reavaliar posições. A tectônica de poder no Ártico está mudando; o jogo foi acelerado. Cabe à Europa decidir se responderá com coordenação, endurecimento ou resignação.
La Via Italia — Marco Severini, análise estratégica e geopolítica.





















