Por Marco Severini — Em movimentos que lembram jogadas estudadas num tabuleiro, a declaração do presidente Donald Trump sobre a intenção de incorporar a Groenlândia aos Estados Unidos reacendeu um debate geopolítico e gerou uma onda de sátira nas redes sociais. A administração americana reiterou que a ilha acabará por ficar sob influência norte-americana “de um modo ou de outro”, frase que inflamou críticas em Nuuk, onde as autoridades reforçaram que a ilha não está à venda.
No calor dessa disputa diplomática — onde se movem interesses estratégicos e rivalidades com potências como Rússia e China — nasceu uma profusão de memes que ironizam as pretensões expansionistas. A criatividade do público digital converteu a tensão em humor, tornando-se, simultaneamente, um termômetro da percepção pública sobre soberania e poder.
Um dos memes de maior circulação utiliza a figura de Totò, o lendário ator italiano, evocando a célebre cena de Totòtruffa ’62, quando o personagem tenta vender a Fontana di Trevi. Na montagem satírica, Totò aparece a negociar a venda da Groenlândia a Trump — uma metáfora ácida que reduz um movimento estratégico a uma negociação teatral, lembrando que, no tabuleiro da diplomacia, gestos simbólicos podem ter consequências reais.
Outro meme popular retrata Trump fazendo compras no Amazon, adicionando ao carrinho territórios como Canadá, o Canal do Panamá e a própria Groenlândia. A imagem exagera, mas não inventa: o Canal do Panamá aparece nas análises estratégicas por sua relevância comercial — por onde transita uma parcela significativa do comércio marítimo mundial (estimada em cerca de 6% do tráfego global) — e por isso mesmo torna-se alvo de atenção quando se discutem projeções de poder e controlo de rotas.
Circulam também rumores e especulações sobre outros objetivos geoestratégicos citados em discussões públicas recentes, como Cuba e zonas de influência na América Latina, em meio a menções ao contexto venezuelano. Cabe, porém, distinguir entre factos confirmados e conjecturas: enquanto o discurso e a retórica alimentam cenários, as respostas oficiais de actores envolvidos, como o governo dinamarquês e as autoridades groenlandesas, têm sido de rejeição à ideia de venda.
Como analista, observo aqui um duplo movimento: na superfície, o espetáculo da sátira digital; por baixo, o redesenho silencioso de prioridades estratégicas. O uso de imagens humorísticas — Totò a vender a Fontana, Trump a “comprar” países na Amazon — funciona como um espelho coloquial que revela receios sobre hegemonia e controlo de recursos e rotas essenciais. Em termos de Realpolitik, cada afirmação pública é uma peça movida no tabuleiro; cada reação oficial, um contramovimento que redefinirá equilíbrio e alianças.






















