Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura sutilezas do poder, Donald Trump chega a Davos na quarta e quinta-feira com a possibilidade — segundo o Financial Times — de conversas reservadas com líderes europeus, inclusive com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Esses encontros ocorrem em um ambiente diplomático tenso, marcado pela escalada das tensões entre os Estados Unidos e a União Europeia após o anúncio de novas medidas tarifárias vinculadas à Groenlândia.
No fim de semana, Trump ameaçou impor taxas alfandegárias de 10% a partir de 1º de fevereiro contra oito países envolvidos em exercícios militares na Groenlândia, com a perspectiva de aumento para 25% em junho se não houver um acordo que preveja o “passagem total e completa” da ilha sob controlo norte-americano. A interpretação europeia desta iniciativa foi imediata: não se trata apenas de uma pressão comercial convencional, mas de um uso das tarifas como instrumento de alcance geopolítico e territorial.
As opções da União Europeia não são numerosas nem rápidas. Bruxelas e os Estados-Membros estudam medidas que vão desde a reativação da lista de contra-dazos sobre cerca de 93 mil milhões de euros de exportações americanas — preparada no ano passado e nunca aplicada — até o recurso ao Instrumento Anti-Coerção (ACI), que entrou em vigor no final de 2023, mas que exige um procedimento longo e politicamente sensível. Em linguagem de bastidores, trata-se de escolher entre um movimento de torre, direto e visível, ou uma estratégia de cavalo, mais complexa e de longo alcance.
O tom público, por ora, endureceu. «Não nos deixaremos chantagear», afirmou o vice-chanceler alemão Lars Klingbeil em declaração conjunta com o ministro francês Roland Lescure, sinalizando a vontade de uma resposta coordenada. Contudo, entre a retórica e a materialização de medidas há um terreno de atrito: tempo, unidade política e custos econômicos condicionam qualquer reação efetiva.
No mercado financeiro imediatamente após as declarações, observaram-se quedas nos futuros dos índices acionários europeus, recuo do preço do petróleo e enfraquecimento do dólar. O ouro, como reserva de valor, atingiu máximos, enquanto os mercados americanos, fechados pelo Martin Luther King Jr. Day, sinalizaram abertura em terreno negativo pelos futuros. Historicamente, anúncios de sanções tarifárias vêm parcialmente atenuados pelas forças do mercado — notadamente pela pressão sobre os rendimentos dos títulos do Tesouro — demonstrando que os Estados Unidos continuam vulneráveis na frente do duplo défice: fiscal e comercial.
No plano doméstico norte-americano, o apoio à aquisição da Groenlândia é marginal: pesquisa Reuters/Ipsos indica apenas 17% de concordância com a ideia de anexação, e o uso da força registra respaldo minoritário inclusive dentro do eleitorado republicano. Ainda assim, a ameaça tarifária permanece concreta e pode ser usada como alavanca de negociação, ou como peça num tabuleiro maior em que a t ectônica de poder no Ártico e nas rotas marítimas se move sorrateiramente.
Esta crise apresenta uma encruzilhada estratégica: a tentativa de transformar medidas econômicas em instrumentos de controversa soberania expõe alicerces frágeis da diplomacia transatlântica e coloca em choque princípios de ordem internacional com práticas de Realpolitik. A resposta europeia medir-se-á não apenas pela amplitude das contramedidas, mas pela capacidade de preservar coesão interna e dissuadir uma instrumentalização das tarifas como substituto de alianças tradicionais.
No fim das contas, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro global em que peças econômicas movem fronteiras invisíveis. A complexidade das respostas — jurídicas, econômicas e políticas — exigirá da União Europeia uma mistura de rapidez tática e resistência estratégica, sob o risco de permitir que o uso de barreiras comerciais redefina a norma da convivência entre aliados.






















