Por Marco Severini — Espresso Italia
Esta noite o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fará o seu tradicional discurso do Estado da União perante uma sessão conjunta do Congresso. Em anos normais, essa fala já seria um dos momentos políticos mais relevantes do calendário; em 2026, transforma-se em um movimento decisivo no tabuleiro político, com potencial de redesenhar linhas de conflito e de consolidação da agenda presidencial.
O pronunciamento, assistido por legisladores de ambos os partidos, membros da Corte Suprema, líderes militares e milhões de espectadores, serve tanto para expor prioridades legislativas quanto para calibrar percepções sobre a liderança. Analistas esperam que Trump aproveite a tribuna para galvanizar sua base, exaltar realizações administrativas, e lançar ataques diretos à oposição.
Um dos pontos que pode gerar maior tensão é a recente decisão da Suprema Corte, na qual três juízes conservadores se aliaram aos liberais para rejeitar a linha dos tarifas impostas pelo governo, que atingiu mais de noventa países. Essa decisão judicial pode obrigar a administração a restituir valores superiores a 130 bilhões de dólares arrecadados por meio de tarifas, abrindo uma fratura árida entre a Casa Branca e os setores que defendem protecionismo.
Do lado democrata, a estratégia simbólica inclui a presença no plenário de vítimas ligadas ao caso de Jeffrey Epstein, o financista que morreu em prisão em 2019. As conexões do escândalo com figuras públicas e com personalidades do meio político e financeiro continuam a constranger o cenário institucional; espera-se que Trump faça uma breve referência, sustentando que foi “scagionato al cento per cento” — expressão que já circula em sua narrativa pública.
O contexto doméstico é de elevada pressão: aprovações em queda — um levantamento da CNN indica 36% de avaliação positiva, contra 48% em fevereiro do ano anterior — e uma paralisação indefinida do financiamento federal do Departamento de Segurança Interna (DHS), em razão de um impasse entre democratas e a Casa Branca sobre medidas de imigração. A disputa gira em torno de restrições pretendidas pelos democratas para agências como o ICE e o Border Patrol, acentuada por episódios de violência que provocaram investigações sobre o uso da força por agentes federais.
Esse bloqueio orçamentário já ampliou seus efeitos para órgãos sensíveis como a Transportation Security Administration (TSA) e a Federal Emergency Management Agency (FEMA), fragilizando a logística e a resposta a emergências — sintomas de alicerces frágeis da diplomacia doméstica e da gestão pública.
Na véspera do discurso, a Casa Branca publicou vídeos e mensagens destacando o retorno da “lei e da ordem”, atribuindo a Trump a responsabilidade pelo recuo da criminalidade e pela recuperação do prestígio norte-americano no palco internacional: “Paz pela força”, afirma o roteiro oficial. A retórica deverá combinar celebração da segurança interna com reivindicações de respeito externo, num ensaio de tectônica de poder que visa consolidar uma narrativa de eficácia.
Resta observar se o pronunciamento funcionará como um movimento defensivo, destinado a conter perdas de capital político, ou como um ataque calculado para reposicionar o presidente em relação aos vetores de crise — judiciário, orçamentário e simbólico. No grande tabuleiro que é a política americana, cada frase será um lance medido; e o resultado dessa noite pode definir o ritmo legislativo dos próximos meses.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional na Espresso Italia.






















