Por Marco Severini — 04 de março de 2026
Em um movimento que redesenha, de forma abrupta, o mapa da influência norte-americana no Oriente Médio, a administração do presidente Donald Trump anunciou o reposicionamento formal de cerca de 50 mil soldados já presentes na região para operações direcionadas ao Irã. Paralelamente, o Pentágono prepara uma solicitação suplementar de orçamento de US$50 bilhões para repor munições e suprimentos consumidos desde o início das hostilidades.
O anúncio, divulgado pelo United States Central Command (CENTCOM) e amplificado pela Casa Branca, ocorre no quinto dia de confrontos entre as forças dos Estados Unidos, seu aliado Israel e unidades iranianas. As forças mobilizadas concentram-se nas bases estratégicas do Qatar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Jordânia, onde operam porta-aviões e esquadrões de caças F‑35. Novos contingentes e esquadrões de aeronaves de combate estão sendo deslocados para complementar o dispositivo.
O teatro de operações ganhou um rótulo oficial: “Epic Fury”, nome escolhido pela administração para a campanha iniciada em 28 de fevereiro. A Casa Branca publicou um vídeo institucional com imagens de jets e mísseis empregados na operação — material que, em contraste curioso, foi acompanhado por uma trilha sonora pop que gerou ampla repercussão midiática.
O almirante Brad Cooper, comandante do CENTCOM, descreveu “Epic Fury” como uma campanha sem precedentes. Segundo sua declaração, nas primeiras 24 horas os EUA teriam lançado o dobro dos ataques realizados no início da invasão do Iraque em 2003. Cooper afirmou ainda que a Marinha americana estaria infligindo danos significativos à força naval iraniana, com, segundo sua estimativa, 17 embarcações destruídas até o momento, enquanto acusava Teerã de atingir indiscriminadamente alvos civis.
No plano interno, a iniciativa suscita controvérsias. Relatos e denúncias de ex-oficiais apontam para elementos de retórica religiosa em briefings às tropas — inclusive com relatos sobre comandantes que teriam atribuído um cunho providencial à campanha presidencial. Críticos, como o ex-oficial da Força Aérea citado em reportagens, veem nisso uma perigosa fricção entre Estado e Igreja e uma instrumentalização da fé para fins geopolíticos.
O pedido de US$50 bilhões ao Congresso aparece como resposta prática à intensidade dos combates: trata-se de recompor estoques de munição, peças e equipamentos consumidos nos ataques recentes e de garantir a capacidade de sustentabilidade de uma campanha prolongada. É um lembrete explícito de que a guerra moderna é, também, uma logística em grande escala — um jogo de reservas e reposições que determina a durabilidade de cada movimento no tabuleiro.
Do ponto de vista estratégico, este aumento de força e de orçamento configura um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: uma tentativa de moldar rapidamente a correlação de forças enquanto as linhas diplomáticas ainda tentam recompor-se. Os riscos são claros e distintos — expansão do conflito, impactos sobre o fluxo de energia global, e a reconfiguração de alianças regionais e globais. Os alicerces da diplomacia, já frágeis, ficam expostos à erosão quando se confia demasiadamente na superioridade militar para resolver impasses políticos.
Em suma, a operação Epic Fury e o concomitante pedido orçamentário representam mais que uma escalada bélica: são um reposicionamento estratégico que visa impor uma nova tectônica de poder no Oriente Médio. Como em um jogo de xadrez de alto nível, cada movimento logístico e retórico agora conta para definir quem controlará os quadrantes decisivos do tabuleiro internacional nas próximas semanas.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e relações internacionais da Espresso Italia. Observador da arquitetura estratégica global, escreve sobre estabilidade e dinâmica de poder.






















