Por Marco Severini — Em um gesto que combina espetáculo midiático e cálculo estratégico, o ex-presidente Donald Trump publicou no Truth Social imagens geradas por inteligência artificial nas quais o Canadá, a Groenlândia e o Venezuela surgem pintados com a bandeira norte-americana. Em uma das montagens, o próprio Trump, ao lado do vice-presidente JD Vance e do secretário de Estado Marco Rubio, fincou uma bandeira na Groenlândia com a inscrição “território EUA desde 2026”.
O simbolismo dessas imagens supera a vulgaridade de um meme: trata-se de uma tentativa deliberada de reposicionar a política externa norte-americana dentro de um discurso expansionista que alguns analistas já batizaram de Doutrina Donroe — uma releitura personalista e assertiva da histórica Doutrina Monroe, cujo propósito original era afastar potências europeias das Américas. Nesta versão contemporânea, Washington reivindicaria não apenas influência, mas controle direto sobre pontos estratégicos do hemisfério.
O efeito imediato foi uma onda de choque diplomático. Governos de Ottawa, Nuuk e Caracas reagiram com incredulidade e cautela, enquanto mediadores europeus e parceiros asiáticos observavam atentamente. Como em um movimento decisivo no tabuleiro, a imagem de uma bandeira americana sobre a Groenlândia sinaliza prioridade estratégica: recursos minerais críticos, rotas marítimas do Ártico e posições geográficas que alteram linhas de comunicação e vigilância no Atlântico e no Polo Norte.
Por trás da provocação visual, há uma lógica geopolítica clara. A administração que promove essa narrativa busca garantir ao país reservas de matérias-primas, assegurar corredores comerciais e impedir a penetração de potências concorrentes — notadamente China e Rússia — no chamado “cortiço” americano. A Groenlândia, por sua vez, é rica em minerais críticos; o Canadá representa vastas reservas energéticas e uma fronteira continental sensível; e o Venezuela continua a ser um núcleo de recursos petrolíferos e de influência regional.
Do ponto de vista histórico, a reativação de um discurso emulando a Doutrina Monroe não é inédita. O que diferencia a proposta atual é a sua teatralização digital e a disposição de traduzir retórica em imagens de posse territorial. Esta é uma operação que mistura comunicação simbólica com sinalização real de intenção política — uma arquitetura de poder que pretende redesenhar fronteiras invisíveis no tabuleiro hemisférico.
Analistas externos interpretam a manobra também como um reflexo do declínio relativo da hegemonia norte-americana: à medida que o sistema internacional se torna mais multipolar, Washington pode optar por rearticular núcleos de influência com enfoques regionais mais agressivos. Nesse contexto, a Doutrina Donroe funcionaria como um corolário de contenção frente à abertura de novos eixos de poder.
Em termos práticos, entretanto, a conversão de imagens em fatos diplomáticos é limitada pelas realidades institucionais: reconhecimento internacional, tratados, custos militares e consequências econômicas herdadas de movimentos unilaterais. As reações de aliados e adversários irão dizer se essa é mera retórica eleitoral ou o início de um redesenho mais profundo dos alicerces frágeis da diplomacia ocidental.
Como analista, observo que movimentos desse tipo exigem leitura cuidadosa dos próximos lances. A política externa é, antes de tudo, um jogo de coordenação entre poder material e legitimidade. Quando um ator finca uma bandeira no mapa, tanto o tabuleiro quanto os jogadores reavaliam suas estratégias: alianças se recalibram, rotas comerciais se replanam, e a tectônica de poder pode deslocar-se sem anunciar tremores.
Em síntese: a publicação no Truth Social é menos um ato criativo isolado do que um sinal de intenção política. Seja como provocação ou prólogo de uma nova política externa, a sua eficácia dependerá da capacidade de transformar imagem simbólica em políticas concretas e sustentáveis — algo que, no xadrez internacional, nunca se conquista sem custo e reação.





















