Marco Severini para Espresso Italia — Em um movimento que altera a rotina diplomática e reconfigura, ainda que parcialmente, o tabuleiro das relações transatlânticas, o presidente americano Donald Trump publicou na rede Truth uma mensagem que, segundo o Palácio do Eliseu, foi enviada pelo presidente francês Emmanuel Macron e originalmente destinada a permanecer reservada.
No texto atribuído a Macron — cuja autenticidade foi confirmada pela assessoria presidencial francesa — lê‑se uma combinação de alinhamento estratégico e sugestões concretas de agenda: “Amigo meu, estamos totalmente alinhados sobre a Síria. Podemos fazer grandes coisas sobre o Irá”, começa a mensagem, que também expressa perplexidade relativamente à postura estadunidense sobre a Groenlândia: “não entendo o que estás a fazer sobre a Groenlândia”.
Além do diagnóstico, o texto contém propostas operativas. Macron oferece organizar um encontro do G7 em Paris na tarde de quinta‑feira, com possibilidade de convidar representantes ucranianos, sírios e russos à margem. Completa a iniciativa com um convite pessoal: “Cenemos juntos em Paris na quinta antes do teu regresso aos EUA”.
O Palácio do Eliseu confirmou que a mensagem foi realmente enviada ao presidente americano e defendeu que o episódio evidencia que, em público e em privado, o presidente francês mantém a mesma linha. Segundo a fonte oficial, a França reafirma posições claras e institucionais: na Groenlândia, “o respeito pela soberania e integridade territorial dos Estados é inegociável” e o compromisso enquanto aliado da NATO para a segurança da região ártica permanece intacto.
Na dimensão síria, o entorno de Macron sublinha cooperação com os EUA para preservar a unidade e a integridade territorial da Síria e para respeitar o cessar‑fogo, sem abandonar o apoio aos aliados na luta contra o Daesh. No que diz respeito ao Irá, a mensagem enfatiza a exigência de respeito às liberdades fundamentais e o apoio francês aos defensores desses direitos no terreno.
Do ponto de vista estratégico, a divulgação pública de uma comunicação privada traduz um movimento de jogo de alto risco no tabuleiro diplomático: revela alinhamentos, abre janelas de oportunidade para mediação e, simultaneamente, expõe tensões sobre soberania e influência. A proposta de incluir ucranianos, sírios e russos à margem de um encontro do G7 sugere uma tentativa de reinserir canais de diálogo onde as linhas de fratura são profundas — um redesenho de fronteiras invisíveis, mas com consequências palpáveis.
Enquanto a administração francesa reafirma que as linhas de política externa permanecem coerentes entre o público e o privado, o incidente ressalta a fragilidade dos alicerces diplomáticos quando a comunicação estratégica deixa de ser confidencial. Em termos práticos, resta observar se o convite para o encontro e o jantar serão confirmados e, sobretudo, se uma iniciativa tão ambiciosa poderá, de facto, transformar tensões regionais em oportunidades de cooperação.
No tabuleiro das grandes potências, gestos como este funcionam como movimentos decisivos: revelam intenções, testam reações e, por vezes, antecipam acordos. A leitura cuidadosa das próximas horas e dias dirá se essa exposição pública foi uma jogada de abertura para um diálogo ampliado ou uma peça deslocada que exigirá novos ajustes.






















