Por Marco Severini — Em uma carta privada revelada à imprensa, o ex-presidente americano Donald Trump dirigiu-se ao primeiro‑ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, com uma mensagem que altera, em termos retóricos e estratégicos, o equilíbrio de discurso sobre o Ártico. Segundo o texto divulgado pelo Sky News, Trump afirma que, depois de não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz — pelo que classifica como ter evitado “oito guerras a mais” — ele sente‑se liberado para priorizar também o que considera “o que é bom e justo para os Estados Unidos”.
No centro da carta está a Groenlândia. Trump escreve que a Dinamarca “não pode proteger aquela terra da Rússia ou da China” e questiona o direito de propriedade dinamarquês: “por que eles teriam um ‘direito de propriedade’? Não há documentos escritos”, afirma. Em sua argumentação, recorre a uma narrativa de primazia marítima: “Uma barca chegou ali há centenas de anos, mas também tivemos barcos que chegaram”. Trump encerra com um apelo geoestratégico às instituições: “Fiz pela OTAN mais do que qualquer outro desde sua fundação, e agora a OTAN deve fazer algo pelos Estados Unidos. O mundo não será seguro se não tivermos o controle total e completo da Groenlândia.”
O teor da carta, ao deslocar a linguagem diplomática para a arena da posse e da segurança, cria um efeito de deslocamento tectônico na diplomacia do Atlântico Norte. Não é apenas uma reivindicação verbal: é uma proposta implícita de redesenho de influência numa peça-chave do tabuleiro ártico, região de crescente valor estratégico pela transição climática e pelas rotas e recursos emergentes.
A reação externa mais notável veio do Kremlin. O porta‑voz do presidente Vladimir Putin, Dmitry Peskov, comentou que, caso Trump “resolva a questão da anexação da Groenlândia”, entraria “na História”. Peskov evitou avaliar moralmente a ação — “não cabe a nós dizer se é bom ou mau” — e citou especialistas que supostamente sustentam a mesma leitura histórica. A resposta russa, ambivalente mas atenta, é uma leitura clássica de potência que observa movimentos no tabuleiro sem condená‑los de imediato, preservando opções diplomáticas e estratégicas.
No terreno econômico imediato, mercados nórdicos reagiram: bolsas escandinavas registraram queda, reflexo da incerteza política e da percepção de risco em relação a investimentos e fluxos comerciais ligados ao Ártico. Movimentos financeiros, mesmo que limitados, atuam como sensores da estabilidade regional; uma peça deslocada no tabuleiro causa vibrações nos mercados.
Como analista — com visão de estado e de longo prazo — convém interpretar o episódio não apenas como uma declaração isolada de um líder carismático, mas como um teste de coeficientes de reação entre aliados e rivais. A menção ao Prêmio Nobel e a invocação da OTAN buscam redesenhar justificativas normativas para um projeto geopolítico: a consolidação de posições estratégicas no Ártico com vistas à supremacia logística e militar.
Na linguagem do grande jogo, é um lance que desafia os alicerces frágeis da diplomacia regional: provoca respostas calculadas de aliados, sondagens de potências adversas e ajustes imediatos nos mercados. A questão essencial permanece: até que ponto as instituições transatlânticas aceitarão, resistirão ou se adaptarão a essa tentativa de reconfiguração? Enquanto isso, o tabuleiro seguirá em movimento, e a Groenlândia, por sua localização e recursos, continuará a ser uma peça disputada entre mapa e interesse.






















