Donald Trump voltou a Davos com uma declaração que mistura diplomacia rasódia e realismo estratégico: a Groenlândia, segundo ele, é “um grande pedaço de gelo” que só os EUA podem realmente proteger. No Fórum de Davos, o presidente reiterou o desejo de abrir negociações para adquirir a ilha, ao mesmo tempo em que se esforça para não romper a OTAN — uma aposta cuidadosamente calibrada entre afirmação de interesses e manutenção de alianças.
Na fala — marcada por saudações a amigos e uma ironia dirigida a adversários — Trump afirmou ter “muito respeito pela Dinamarca” e qualificou os dinamarqueses como “pessoas amáveis”, mas lembrou um episódio histórico: segundo ele, os EUA salvaram a Groenlândia para que não fosse ocupada pelos alemães na Segunda Guerra e depois a devolveram à Dinamarca. A narrativa desemboca em crítica: os dinamarqueses seriam agora “ingratos”.
Apesar de minimizar a ameaça de ruptura com aliados, o presidente delineou o projeto geopolítico: transformar aquele território ártico em um pivô de defesa norte-americana — ele citou a construção de um “maior Golden Dome” para proteger inclusive o Canadá — e condicionou a negociação a uma resposta europeia. “Se os europeus disserem sim, agradeceremos; se disserem não, vamos lembrar”, advertiu, numa clausura que mistura diplomacia com ameaça velada.
Ao defender a iniciativa, Trump não se limitou ao tema territorial. Em Davos, ele reclamou da política climática europeia, qualificando-a como “a grande trapaça verde” e atribuiu ao seu governo a neutralização de uma suposta “catástrofe energética” para os EUA, enquanto aponta a Europa como vítima de escolhas equivocadas.
O presidente também fez um balanço de sua gestão econômica: afirmou que sua primeira presidência foi a de maior sucesso financeiro da história norte-americana e que o segundo mandato estaria superando esses resultados. Entre as alegações figuram a queda da inflação, a atração de “18 trilhões” em investimentos, a produção de gás em níveis históricos, a redução do déficit em 27% em um ano e cortes na despesa federal da ordem de US$100 bilhões.
No entorno do Fórum, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, endossou a visão de que a administração está “reequilibrando a ordem internacional para o bem comum”, defendendo que um mundo com uma América forte é, nas suas palavras, “mais seguro e próspero”.
Do ponto de vista estratégico, a declaração sobre a Groenlândia é um movimento de alto valor simbólico e prático. Trata-se de um lance no grande tabuleiro geopolítico do Ártico, região cujo valor — militar, econômico e climático — cresce na tectônica contemporânea. A intenção explícita de negociar um território nacional com um aliado tradicional remete a uma liturgia de poder que testa a resiliência dos alicerces diplomáticos europeus.
Enquanto o anúncio ressoa em capitais europeias e em Ottawa, permanece a interrogação sobre meios e consequências: o discurso evita a força explícita, mas introduz pressão política e moral. A analogia com uma jogada de xadrez é apropriada: é movimento de peça grande, projetado para reposicionar influência, medir reações e, sobretudo, estabelecer novos equilíbrios de poder no Polo Norte.
Em resumo, o que se vê em Davos não é apenas uma proposta de compra territorial, mas o ensaio público de um reposicionamento estratégico que visa, em última instância, consolidar uma hegemonia americana sobre rotas, recursos e plataformas de projeção na região ártica — uma operação que exige, antes de tudo, a leitura atenta dos próximos lances diplomáticos entre Washington, Copenhague e os aliados europeus.






















