Por Marco Severini — Em um novo episódio que redesenha linhas sutis no tabuleiro diplomático, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enviou uma mensagem direta ao primeiro‑ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, manifestando insatisfação por não ter sido laureado com o Prêmio Nobel da Paz e afirmando que, por isso, não se sente mais obrigado a “pensar exclusivamente na paz”. A reivindicação, confirmada por autoridades de Oslo e por uma fonte à AFP, ocorreu num momento de atrito relacionado a medidas comerciais anunciadas por Washington.
Segundo narrativa reconstruída por Støre, a mensagem do presidente norte‑americano chegou logo após uma comunicação conjunta do próprio primeiro‑ministro norueguês com o presidente finlandês, Alexander Stubb. Naquela nota, Oslo e Helsinque haviam solicitado uma desescalada diante dos dazos (tarifas) que Washington anunciou contra Noruega, Finlândia e outros parceiros, propondo inclusive uma chamada trilateral para discutir o tema.
Em resposta, Trump teria dito: “Considerando que o vosso país decidiu não atribuir‑me o Prêmio Nobel da Paz por ter interrompido 8 guerras A MAIS, não sinto mais a obrigação de pensar exclusivamente na Paz.” O teor da mensagem atribui ao governo norueguês influência direta sobre o Comitê Nobel, uma alegação que contraria o estatuto do próprio prêmio: o comitê opera formalmente de forma independente do Executivo de Oslo.
Støre, com a calma institucional típica de um estadista em defesa de alicerces democráticos, reiterou que o Prêmio Nobel é conferido por um comitê independente e descreveu a sequência dos contactos com outros líderes: “A resposta de Trump foi enviada pouco depois de termos transmitido nossa posição. Foi decisão do presidente compartilhar o conteúdo com demais chefes da NATO”.
Além da controvérsia sobre o Nobel, o primeiro‑ministro norueguês aproveitou para reafirmar posições sobre temas sensíveis citados por Trump, notadamente a questão da Groenlândia. “A Groenlândia pertence ao Reino da Dinamarca e a Noruega apoia plenamente o Reino da Dinamarca nesta matéria”, declarou Støre, ao sublinhar que a NATO vem adotando “medidas responsáveis” para preservar estabilidade e segurança no Ártico, uma região cuja importância geopolítica voltou a crescer no mapa estratégico global.
Apesar das explicações e da insistência na autonomia institucional de Oslo, Trump manteve a convicção de que o governo norueguês exerce influência direta sobre o Comitê Nobel: “A Noruega o controla de certeza, embora afirmem o contrário. Eles dizem que não têm nada a ver com a decisão, mas são eles que decidem tudo”, declarou o presidente, justificando a escolha de encaminhar a reclamação diretamente a Støre.
Do ponto de vista da Realpolitik, trata‑se de um movimento calculado no tabuleiro: uma afirmação pública que simultaneamente pression a credibilidade institucional de um aliado e procura moldar percepções internas e externas sobre legitimidade e recompensa internacional. Para Oslo e Helsinque, o desafio imediato é conter a escalada comercial sem romper os frágeis alicerces de cooperação transatlântica, enquanto em Washington essa retórica funciona como elemento de negociação e demonstração de força.
Em suma, a troca de mensagens entre Washington, Oslo e Helsinque expõe não apenas um atrito sobre tarifas, mas também uma tensão simbólica sobre quem define a narrativa de paz e mérito no sistema internacional — uma disputa que, embora amplificada nas redes e na imprensa, se joga sobretudo nos corredores discretos da diplomacia e nos movimentos estratégicos do tabuleiro.





















