Washington lançou uma iniciativa de amplitude estratégica: o presidente Trump convidou a União Europeia, a Rússia, a Turquia e o Qatar a integrar o novo Board of Peace que supervisionará o acordo de cessar-fogo e os primeiros passos de reconstrução em Gaza. A oferta, porém, vem acompanhada de uma condição material explícita: um contributo de US$1 bilhão para se tornar membro permanente; adesões temporárias de três anos não requerem contrapartida financeira.
Ao aceitar até o momento figuram países cujos governos seguem uma política externa assertiva: a Argentina de Javier Milei, a Hungria de Viktor Orbán e o Cazaquistão do presidente Kassym-Jomart Tokayev. Fontes americanas ouvidas pela Reuters indicam que os recursos propostos seriam destinados à reconstrução de Gaza, um objetivo humanitário — e simultaneamente político — no centro do projeto norte-americano.
Em Bruxelas, o convite foi recebido com cautela e disponibilidade ao diálogo. O porta-voz da Comissão Europeia, Olof Gill, declarou que a presidente von der Leyen está em contacto próximo com outros líderes europeus e que a prioridade continua a ser a paz. Complementando, Anouar El Anouni, porta-voz do Serviço Europeu para a Ação Externa, sublinhou que a UE aprecia o convite, partilha o objetivo de encerrar o conflito e acredita poder contribuir com ferramentas multidimensionais — diplomáticas, humanitárias e de segurança — às necessidades complexas da cena em Gaza.
O anúncio, porém, gera tensões diplomáticas previsíveis no terreno geopolítico. O governo de Israel rejeitou o formato do Board of Peace, especialmente a inclusão da Turquia e do Qatar. Embora Tel Aviv tenha recebido convite para integrar o mecanismo, o Executivo israelense afirmou que a composição do comitê executivo anunciada não foi coordenada com Israel e contraria sua política; por isso, determinou que o ministro dos Negócios Estrangeiros contacte o secretário de Estado norte-americano para esclarecimentos.
As objeções israelenses não são meramente formais. Ao longo das últimas décadas, Jerusalém tem demonstrado reservas quanto a papéis de actores que considera ambíguos em relação a grupos armados na região. A inclusão de representantes turcos e qatarienses no comitê executivo é interpretada por parte da liderança israelense como desequilíbrio na arquitetura de segurança pós-conflito.
Do ponto de vista estratégico, a proposta americana configura um movimento decisivo no grande tabuleiro internacional: ao condicionar um assento permanente a um contributo substancial — US$1 bilhão — os Estados Unidos articulam instrumentos de poder blando e fiscalização financeira para moldar uma governança da reconstrução. É um tempo de redobrar a diplomacia clássica; os alicerces frágeis da reconstrução dependerão tanto da legitimidade política do fórum quanto da capacidade efetiva de distribuição dos recursos.
Na prática, essa iniciativa pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência regional. Países dispostos a aportar fundos significativos compram não apenas presença institucional, mas projeção política num momento em que a tectônica de poder no Oriente Médio se realinha. Por outro lado, a resistência israelense e as reservas de atores regionais põem à prova a viabilidade de um mecanismo liderado por Washington que pretende reunir Rivais e parceiros num mesmo tabuleiro.
Como analista com foco em estabilidade e Realpolitik, observo que o passo seguinte dependerá da habilidade diplomática em transformar um arranjo técnico de supervisão de cessar-fogo num projeto de reconstrução percebido como imparcial e eficaz. Sem coordenação estreita com Jerusalém e sem garantias de segurança operativa para a implementação, o mérito financeiro do contributo de US$1 bilhão poderá revelar-se insuficiente para garantir a coesão política necessária.
Em suma, o convite americano é um movimento de alto risco e potencial ganho: pode estabilizar um espaço humanitário urgente ou aprofundar fissuras entre aliados. No tabuleiro, cada peça — financeira, diplomática ou militar — continuará a ser jogada com cautela, porque a paz em Gaza exigirá mais do que cifras; exigirá construção de confiança e equilíbrio de interesses.






















