Por Marco Severini — Em Washington, no Instituto para a Paz recentemente renomeado em sua homenagem, o presidente americano Donald Trump presidiu o ato de lançamento do Board of Peace, organismo concebido como instrumento internacional para promover um futuro para Gaza e, nas palavras de seu mentor, atuar na resolução de conflitos globais. O evento foi concebido como um movimento decisivo no tabuleiro diplomático, com reflexos esperados na tectônica de poder regional.
Estavam presentes delegados de cerca de quarenta países, entre membros do Board e observadores, incluindo a Itália, representada pelo ministro das Relações Exteriores Antonio Tajani. Ao lado das monarquias do Golfo — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Qatar — marcaram presença atores regionais-chave como Egito, Jordânia e Turquia; ainda participaram Chipre (presidência rotativa da UE), Alemanha, Hungria (Viktor Orbán), Argentina (Javier Milei), Azerbaijão (Ilham Aliyev), Paquistão e Indonésia. Entre representantes de instituições figuraram a comissária europeia para o Mediterrâneo, Dubravka Suica, e o presidente da FIFA, Gianni Infantino.
O ministro Tajani descartou que a presença italiana fosse um gesto puramente político: “Não é um capricho italiano”, afirmou, sublinhando que Roma participa como observadora e que, segundo ele, saíram da reunião “propostas concretas”. Tajani procurou ainda neutralizar críticas internas: “Não somos nem isolados nem subordinados a ninguém — quando a maioria dos países europeus participa, confirma-se que estávamos corretos”. Tal declaração desenha uma intenção italiana de manter autonomia estratégica, preservando alicerces frágeis da diplomacia europeia.
No plano prático, a primeira sessão do Board of Peace terminou com a assinatura de uma resolução e com promessas de fundos e pessoal. A Casa Branca anunciou um contributo dos Estados Unidos de 10 bilhões de dólares, que se somariam aos 7 bilhões comprometidos por nove países — Cazaquistão, Azerbaijão, Emirados, Marrocos, Bahrein, Qatar, Arábia Saudita, Uzbequistão e Kuwait.
“Cada dólar gasto na reconstrução é um investimento na estabilidade e na esperança de uma região mais harmoniosa”, declarou Trump, sem detalhar cronogramas ou mecanismos de supervisão. A dimensão militar da iniciativa também foi tratada: a proposta de uma Força Internacional de Estabilização (ISF), aprovada no papel pelo Conselho de Segurança da ONU, recebeu manifestações de intenção por parte de vários Estados. A Indonésia reiterou disponibilidade para enviar até 8 mil soldados e indicou que irá designar o vice-comandante das tropas; Marrocos, Albânia, Cazaquistão e Kosovo também sinalizaram intenção de contribuir com contingentes.
Ao mesmo tempo, Tajani informou que a Itália estuda um plano financeiro autônomo para Gaza, independente do Board, e se dispôs a participar de formação da polícia palestina em território jordaniano. “No momento não avaliamos outras hipóteses de presença militar”, afirmou o ministro, preservando assim uma margem de manobra diplomática e evitando um engajamento militar direto.
Resta, contudo, a questão central: a ISF, ainda que aprovada no Conselho de Segurança, “existe por enquanto apenas no papel”. A concretização operacional desse quadro dependerá de decisões políticas e logísticas complexas — um verdadeiro problema de xadrez geopolítico, em que cada movimento pode reconfigurar fronteiras de influência e testar a resistência das instituições multilaterais, sobretudo da ONU, sobre a qual o novo Board promete exercer vigilância.
Em suma, o lançamento do Board of Peace combina promessas volumosas de recursos com intenções de contribuição militar e propostas de treinamento policial, mas enfrenta o desafio clássico da diplomacia: transformar resoluções e declarações em presença efetiva e sustentável sobre o terreno. O desenrolar desse plano poderá redesenhar, de forma discreta porém profunda, as linhas de influência no Mediterrâneo Oriental e no Oriente Médio.






















