Donald Trump não apenas formalizou a criação do Board of Peace para a governança e reconstrução de Gaza, como também indicou dois conselheiros sênior para orientar a gestão cotidiana da Faixa: os nomes escolhidos — Ariel Lightstone e Josh Gruenbaum — já provocam reações e desconfianças regionais e internacionais.
O anúncio foi feito durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, onde o presidente americano assinou o documento que institui o novo organismo multilateral. Em cerimônia protocolar, líderes convidados foram chamados ao palco para rubricar o acordo aos pares, em um gesto de coroação diplomática conduzido pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt. Embora a adesão de Israel ao Board tenha sido confirmada, o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu esteve ausente da assinatura presencial — um detalhe simbólico em um momento de alta sensibilidade política.
O projeto é apresentado oficialmente como uma iniciativa destinada a “promover estabilidade, restaurar governança confiável e garantir paz duradoura nas zonas de conflito”. Na prática, porém, ergue controvérsias: críticos alertam para o risco de criação de uma estrutura paralela ao sistema multilateral existente, em particular à arquitetura das Nações Unidas. Preocupações recaem sobre a concentração de poderes, a transparência no financiamento — inclusive a proposta de entrada de US$1 bilhão para membros permanentes — e a exclusão explícita de representantes palestinos da configuração decisória.
As nomeações de Ariel Lightstone e Josh Gruenbaum aprofundam o debate. Ambas as figuras são associadas a posições nitidamente sionistas, o que, para observadores palestinos e parte das diplomacias árabes, compromete a imparcialidade necessária à administração quotidiana de Gaza. Em termos geopolíticos, trata‑se de um movimento que realinha e visibiliza interesses: a escolha de conselheiros com perfis identificáveis sinaliza, no tabuleiro internacional, um claro eixo de influência favorável a Tel Aviv.
Diplomaticamente, a iniciativa caminha sobre alicerces frágeis. Muitos países demonstraram reticência ao projeto, temendo tanto a opacidade das decisões quanto a possibilidade de que o Board funcione como uma espécie de contrapoder da ONU. A ausência de interlocução com lideranças palestinas e a composição de membros com afinidades partidárias para além do consenso internacional orientam interpretações críticas e prudentes.
Como analista, vejo essa jogada como um movimento decisivo no tabuleiro: a administração Trump procura consolidar um mecanismo de influência direta sobre a reconstrução de Gaza, configurando um redesenho de fronteiras invisíveis na governança regional. Resta saber se os alicerces institucionais do Board serão suficientemente sólidos para resistir à tectônica das rivalidades locais e às pressões por legitimidade internacional.
O tema continuará a dominar debates nas próximas semanas, à medida que detalhes operacionais sobre financiamento, mandatos e interlocutores forem divulgados. A estabilidade da Faixa depende não só de recursos materiais, mas da credibilidade política do ator que assume sua administração — e a escolha de conselheiros com clara filiação política complica essa equação.






















