Marco Severini – Em retorno de Davos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a provocar um redesenho nas alianças transatlânticas ao afirmar que a Itália e a Polônia desejam integrar o novo organismo internacional lançado no Fórum Econômico Mundial: o Board of Peace para a gestão da reconstrução em Gaza. Segundo Trump, líderes como Giorgia Meloni e Karol Nawrocki teriam contatado a Casa Branca manifestando interesse — e, no caso da premiê italiana, um apetite que o presidente descreveu como “desesperado”.
As declarações foram feitas a bordo do Air Force One e reacendem tensões já perceptíveis entre Washington e vários governos europeus. Na cerimônia de Davos, onde o Board of Peace foi formalmente apresentado, Trump assinou o documento fundador e conduziu a cerimônia de ratificação presencial, com líderes sendo chamados a rubricar o instrumento dois a dois, acompanhados pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt. A ausência de Benjamin Netanyahu e a presença de países não ocidentais entre os signatários deram ao ato um perfil heterogêneo e politicamente carregado.
Em Roma, a reação oficial foi de negação contida: Palazzo Chigi desmentiu contatos diretos com Washington, optando pela prudência e pelo silêncio público. Diferentemente de Hungria e Bulgária — os únicos Estados-membros da UE a assinarem na ocasião —, a Itália não subscreveu a carta fundadora em Davos. Fontes do governo recordam que uma eventual adesão implicaria passos formais como tramitação parlamentar e verificação de compatibilidade com o artigo 11 da Constituição, além de alinhamento com a Carta das Nações Unidas e tratados internacionais.
Trump afirmara ainda que o Kremlin teria aceitado o convite a integrar o Conselho e que Moscou estaria disposta a disponibilizar fundos — uma referência às declarações sobre a possibilidade de liberação de até US$ 1 bilhão de ativos congelados — posição que o Kremlin descreve publicamente como sujeita a avaliação. Por outro lado, o Reino Unido oficializou o seu não, afastando-se do mecanismo proposto.
Do ponto de vista estratégico, a iniciativa do presidente americano funciona como um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: a criação de um órgão paralelo para coordenar a reconstrução de Gaza altera os alicerces frágeis da diplomacia multilateral ao oferecer canais alternativos de influência e decisão. Para capitais europeias, a adesão — ou a rejeição pública — passa agora pela ponderação entre solidariedade operacional, soberania jurídica e consequências políticas internas.
Para a liderança italiana, em particular, a equação é dupla. Há, de um lado, a pressão de demonstrar relevância em questões de política externa e, do outro, a necessidade de respeitar controles constitucionais que protegem a participação do país em iniciativas que possam implicar compromissos militares ou transferências de soberania. Em termos de tectônica de poder, a inclusão declarada de atores como a Rússia no Board of Peace indica uma tentativa de construir um eixo funcional — ainda que provisório — em torno da gestão pós-conflito, com implicações diretas para a influência americana no Mediterrâneo oriental e para as vontades de recomposição regional.
Em suma, as palavras de Donald Trump lançam peças no tabuleiro internacional: testam respostas, medem limites constitucionais e sondam vontades políticas. A decisão final de Roma e Varsóvia, bem como a posição formal de Moscou, determinará os contornos desse novo organismo e sua eventual capacidade de operar em consonância — ou em contradição — com as estruturas multilaterais estabelecidas.






















