Por Marco Severini — Em um gesto que busca redesenhar vetores de influência, o presidente americano Donald Trump presidiu a cerimônia de assinatura do Board of Peace no Foro de Davos, qualificado por ele mesmo como “uma giornata eccitante”. O ato, formalizado por um tratado inaugural, foi apresentado como o primeiro passo de um organismo que, segundo Trump, trabalhará em coordenação com a ONU e com outros atores globais.
No pronunciamento de abertura, Trump reiterou proclamações já conhecidas de sua administração: a alegação de ter interrompido «oito guerras» e de ter levado «finalmente a paz no Médio Oriente». Sobre um possível «nono conflito», claro subtexto relativo à Ucrânia, o presidente afirmou existir progresso substancial nas negociações, sem, porém, oferecer detalhes operacionais.
Quanto à Gaza, Trump enfatizou o papel do Conselho no cessar-fogo e na coordenação de ajuda humanitária: “a população não está mais morrendo de fome porque fizemos chegar um fluxo recorde de auxílio”. Em tom de arquiteto estratégico, evocou uma reconstrução que será “algo grandioso”, condicionada, entre outras exigências, à devolução pelos militantes do Hamas das últimas sepulturas/quinquagésimos restos do refém israelense ainda em território palestino.
A cerimônia teve caráter simbólico e protocolar: os líderes convidados assinaram o documento sentando-se dois a dois à direita e à esquerda do presidente, apertando-lhe a mão em sequência. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, coordenou a apresentação dos signatários, formalizando a resolução inaugural que estabelece o mandato do chamado Conselho de Paz para Gaza, referenciado pela resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Em tom de praça pública e tabuleiro diplomático, Trump também reclamou crédito por ter levado os membros da NATO a respeitar a meta de 2% do PIB em gastos de defesa, lamentando, com ironia estratégica, a exceção espanhola: “não sei qual é o problema dos espanhóis, querem só usufruir, preciso falar com eles”.
Sobre as Nações Unidas, fez observação ambivalente: “a ONU tem grande potencial, é cheia de pessoas fantásticas, mas não o explora”. Em sua leitura, o Board of Peace se apresentará como um novo alicerce institucional, capaz de ampliar a capacidade de intervenção coordenada em zonas de conflito.
Ao final da cerimônia, o secretário de Estado Marco Rubio subiu à tribuna para elogiar o presidente, descrevendo-o como alguém capaz de “sonhar o impossível” e garantindo que o novo Conselho permitirá avanços além do Médio Oriente. Trata-se de um movimento que, no melhor jargão da diplomacia de poder, busca reorganizar peças no tabuleiro internacional: testar a eficácia de um novo instrumento multilateral liderado pelos Estados Unidos, medir a resposta das instituições tradicionais e disputar influências em áreas sensíveis como a reconstrução pós-conflito.
Em termos práticos, permanecem perguntas cruciais: qual será a composição efetiva e financeira do Board of Peace? Como serão garantidas a legitimidade e a coordenação com a ONU e com atores regionais? As respostas definirão se este tratado é um movimento de concreto impacto ou uma jogada de cena com efeitos limitados. Na diplomacia contemporânea, cada assinatura é uma peça movida sobre um tabuleiro de xadrez cujas consequências se desenrolam lentamente.






















