Na terça‑feira, 3 de fevereiro de 2026, mais uma cena no Salão Oval expôs um padrão tanto político quanto simbólico: uma pergunta profissional sobre as consequências da divulgação dos documentos de Jeffrey Epstein foi recebida com um ataque pessoal e de tom sexista por parte de Donald Trump. A repórter da CNN, Kaitlan Collins, buscava respostas sobre o vazamento que expôs dados sensíveis de sobreviventes; a resposta do presidente foi desprovida de substância e plena de insultos.
Segundo a sequência pública, Trump interrompeu a pergunta, acusando Collins de ser “ruim no seu trabalho” e responsabilizando‑a pelo declínio de audiência da emissora. Em seguida, proferiu a frase que ganhou as manchetes mundiais: “Eu te conheço há uma década e nunca te vi sorrir” — um ataque pessoal sobre a aparência e a expressão que desvia o foco do fato central: a proteção das vítimas do tráfico sexual e o manejo de documentos sensíveis pelo Estado.
O episódio ocorreu no contexto imediato da decisão do Departamento de Justiça de tornar públicas milhões de páginas relacionadas a Epstein. Em tese, a liberação deveria respeitar determinantes legais de blindagem de identidades de sobreviventes; na prática, os arquivos continham fotos sem censura, números de previdência social, informações pessoais completas e até imagens de nudez. Advogados que representam as vítimas falam em “milhares de violações” que afetariam quase cem mulheres.
Uma das afetadas, Anouska De Giorgiou, que testemunhou no processo contra Ghislaine Maxwell — condenada por tráfico e exploração sexual de menores — descobriu casualmente que sua carteira de motorista e transcrições detalhadas de entrevistas com o FBI estavam disponíveis sem proteção. “Não é apenas incompetência técnica”, afirmou ela. “É uma falha em proteger pessoas a quem havia sido prometida confidencialidade.” O quadro se torna ainda mais paradoxal quando se observa que, em diversos registros, nomes de potenciais cúmplices aparecem sistematicamente ocultados, enquanto nomes e imagens das supostas vítimas permanecem expostos; em um caso notório, o rosto de Trump em um recorte de jornal foi coberto por um retângulo negro enquanto o de mulheres permanecia visível.
O ataque verbal a Collins não é um incidente isolado, mas parte de uma sequência que, nos últimos meses, tem como alvo especialmente repórteres do sexo feminino. Em novembro, Trump dirigiu‑se a Catherine Lucey, da Bloomberg, com um insulto grosseiro quando questionado sobre Epstein; Mary Bruce, da ABC, também foi alvo de adjetivações depreciativas. A repetição desses episódios sugere uma estratégia comunicativa que busca deslegitimar profissionais críticas por meio de pessoalização e desprezo — uma manobra com efeitos práticos: a intimidação funciona como barreira de acesso a informações sensíveis e como tentativa de molde da narrativa.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de dois níveis de desgaste: primeiro, o erro operacional do Estado ao liberar documentos sem salvaguardas básicas, que altera os alicerces da proteção às vítimas e coloca em xeque a confiança pública nas instituições responsáveis pela investigação. Segundo, a resposta política — a personalização do confronto com jornalistas — que transforma a imprensa em um campo de batalha simbólico, onde a autoridade procura dominar o ritmo da agenda pública em vez de enfrentar o mérito das questões.
Como analista que pensa em termos de tectônica de poder, vejo aqui um movimento decisivo no tabuleiro: proteger as instituições e as vítimas exige tanto correções processuais imediatas no tratamento de arquivos sensíveis quanto uma defesa firme da independência jornalística. A arquitetura da democracia fragiliza‑se quando o escrutínio é reduzido a ataques pessoais e quando a transparência operacional se converte em exposição negligente de vítimas.
Em última análise, a proteção das vítimas de Epstein e o respeito ao papel do jornalismo independente são peças conectadas do mesmo jogo diplomático e institucional. Ignorar um lado do tabuleiro compromete a estabilidade do outro. Para além do ruído retórico, urge responsabilidade administrativa e uma resposta pública que reafirme princípios de dignidade, sigilo e verdade.






















