Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, em silêncio, um novo trecho do tabuleiro estratégico do Oriente Médio, fontes informadas indicam que o presidente estadunidense Donald Trump manteve conversas com líderes de facções curdas baseadas no Iraque e no oeste do Irã sobre a possibilidade de apoio militar e material. O objetivo operacional, conforme relatos consolidados pelo jornal Axios e por diversas fontes diplomáticas, seria equipar e financiar essas milícias para agir como uma força terrestre que pressione Teerã a partir de seu interior.
As interlocuções teriam alcançado figuras centrais do cenário curdo iraquiano, incluindo Masoud Barzani e Bafel Talabani, numa tentativa de readicionar o Kurdistão iraquiano à matriz de opções estratégicas de Washington. Segundo as apurações, a proposta americana ainda não configuraria uma decisão definitiva sobre envio de armas ou compartilhamento de inteligência, mas colocaria as milícias curdas novamente como peça possível num jogo de pressões destinado ao chamado “regime change” em Teerã.
Historicamente, atores regionais como Israel mantiveram canais de cooperação e inteligência com grupos curdos no Iraque e na Síria, e os Estados Unidos já apoiaram forças curdas em campanhas contra o Estado Islâmico. No entanto, o contexto atual é diferente em sua finalidade: trata-se de transformar agrupamentos étnico-regionais em vetores internos de desgaste contra a República Islâmica.
A reação do Corpo das Guardiãs da Revolução Islâmica (IRGC) foi imediata e enfática. Em comunicado oficial, responsáveis militares iranianos advertiram que “se os curdos nos atacarem, se abrirá outra guerra”, sinalizando que qualquer incursão armada ou apoio externo a milícias atacando solo iraniano seria tratada como ato de guerra. Nos últimos dias, Teerã intensificou ações com drones visando posições de grupos curdos refugiados no norte iraquiano, com relatos de ataques a bases do Partido Democrático do Kurdistão do Irã (PDKI) e de Komala nas proximidades de Erbil e Sulaymaniyah.
Adicionalmente, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem ampliado uma campanha comunicacional voltada ao público iraniano, incluindo a divulgação de material audiovisual — com uso de inteligência artificial — em persa que convida à insurreição interna. Esse tipo de ação complementa uma estratégia de pressão multifacetada, em que meios informacionais se somam a opções militares indiretas.
Do ponto de vista geopolítico, a proposta americana — ainda em avaliação — representa um movimento de alto risco. Ativar grupos armados é como abrir uma frente nova no tabuleiro: pode criar pontos de pressão contra Teerã, mas também amplia as linhas de atrito com Bagdá e com potências regionais, fragilizando os alicerces já frágeis da diplomacia iraquiana. A tectônica de poder regional mostra-se assim sujeita a novos deslocamentos, com o Kurdistão reaparecendo como possível instrumento e como alvo.
Em termos práticos, há três vetores de atenção imediata: a) a confirmação ou não do fornecimento de armas e financiamento; b) o comportamento das facções curdas, que historicamente mantêm agendas internas diversas; c) a resposta do IRGC e das estruturas militares iranianas, cujo discurso público já delineia uma linha vermelha para incursões armadas.
Enquanto as capitais calculam suas próximas jogadas, permanece claro que qualquer escalada terá efeitos não apenas militares, mas também políticos e econômicos sobre rotas de energia, segurança fronteiriça e alianças transversais no Oriente Médio. No xadrez estratégico que se desenha, cada movimento — ostensivo ou encoberto — poderá reconfigurar alianças e impor novos contornos à estabilidade regional.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.






















