Marco Severini para Espresso Italia — Em novo e deliberado movimento no tabuleiro das relações comerciais norte-americanas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reiniciou uma escalada retórica contra o Canadá. A ameaça, postada na plataforma Truth, diz respeito a um eventual acordo entre Ottawa e a China e promete medidas tarifárias drásticas que, no dizer do presidente, equivaleriam a um contra-movimento decisivo no tabuleiro econômico.
No centro da controvérsia está o primeiro-ministro canadense, identificado nas mensagens como Mark Carney, ao qual Trump atribui a intenção de transformar o país em um “porto de trânsito” para produtos chineses com destino ao mercado dos EUA. A mensagem do presidente foi enfática: “Se o governad or Carney pensa de poter trasformare il Canada in un ‘porto di transito’ per le merci cinesi destinate agli Stati Uniti, si sbaglia di grosso. La Cina divorerà il Canada, lo annienterà completamente, distruggendo le sue imprese, il suo tessuto sociale e il suo stile di vita. Se il Canada stringerà un accordo con la Cina, subirà immediatamente dazi del 100% su tutte le merci e i prodotti canadesi importati negli Stati Uniti.” A declaração foi reproduzida e amplificada por aliados e adversários, alimentando uma nova fase de tensão entre Washington e Ottawa.
Há uma certa ironia estratégica: apenas dias antes, o governo canadense havia alcançado, em Pequim, um entendimento com a China para reduzir recíprocas barreiras comerciais. Após o encontro entre Carney e o presidente chinês Xi Jinping — a primeira viagem de um primeiro-ministro canadense à China em quase uma década — Ottawa concordou em reduzir drasticamente as tarifas sobre veículos elétricos chineses, autorizando a importação de 49 mil unidades com uma tarifa de 6,1%, frente aos 100% aplicados em 2024 em coordenação com Washington.
Em contrapartida, Pequim sinalizou a redução de tarifas sobre produtos agrícolas canadenses estratégicos, entre os quais a colza. No prisma da geopolítica econômica, trata-se de um rearranjo pontual: concessões sensíveis em bens industriais de alto valor agregado em troca de maior acesso a mercados agrícolas — um desenho que redesenha fronteiras invisíveis de influência comercial.
Curiosamente, o posicionamento público de Trump não foi linear. Em um primeiro momento, o presidente teria até encorajado Carney, afirmando que “se conseguisse fechar um acordo com a China, deveria fazê-lo”. No entanto, ao longo do fim de semana, o tom mudou de forma abrupta, com a postagem no Truth assumindo caráter de ultimato. A escolha de empregar o termo “governador” como insulto reafirma uma tática retórica conhecida: deslegitimar interlocutores por meio de apelidos hierárquicos, uma jogada que busca fragilizar os alicerces da diplomacia bilateral.
Do ponto de vista estratégico, a ameaça de tarifas de 100% funciona simultaneamente como instrumento de dissuasão e de coerção econômica: pretende tornar inviável, por custo, qualquer reaproximação econômica que beneficie a indústria chinesa às custas das cadeias de valor norte-americanas. É um lance que procura proteger setores domésticos e validar um eixo de influência — mas que, ao mesmo tempo, expõe a fragilidade de alianças tradicionais e o risco de escalada tarifária entre parceiros próximos.
Em suma, assistimos a um movimento em que a tectônica de poder comercial entre Washington, Ottawa e Pequim volta a se deslocar. A próxima jogada dependerá tanto das respostas diplomáticas de Ottawa quanto dos limites práticos de implementação de tarifas tão severas — e de como outros atores do sistema, da indústria automotiva aos produtores agrícolas, reagirão a um redesenho tão abrupto das regras do comércio.





















