Por Marco Severini — A tensão entre Washington e Teerã voltou a subir de forma abrupta, numa sequência que redesenha, peça por peça, as coordenadas da diplomacia regional. O ex-presidente Donald Trump advertiu o Irã de que o tempo para evitar um possível intervenção militar americana está se esgotando, citando um grupo de ataque naval descrito como uma verdadeira “armada” liderada pela porta‑aviões USS Abraham Lincoln, posicionada no Oceano Índico e pronta para atuar.
O estopim verbal foi a reação às declarações do vice‑ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, que criticou a prática de condicionar a diplomacia por meio de ameaças militares: “conduzir a diplomacia através da ameaça militar não é eficaz nem útil”. Araghchi afirmou, ainda, que não houve contato recente com o enviado norte‑americano para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e declarou que o Irã “não buscou negociações” nos últimos dias.
Em suas mensagens públicas, Trump pediu que o Irã se sente rapidamente à mesa para negociar um acordo que, nas suas palavras, seria “justo e equitativo — NADA DE ARMAS NUCLEARES” e enfatizou que “o tempo está se esgotando”. Referindo‑se a ataques americanos contra alvos iranianos no passado recente, o ex‑presidente advertiu que “o próximo ataque será muito pior”.
A missão iraniana nas Nações Unidas respondeu com veemência no X, apontando o custo humano e material das intervenções americanas anteriores: “Da última vez que os EUA entraram no Afeganistão e no Iraque, gastaram mais de 7.000 bilhões de dólares e perderam mais de 7.000 vidas americanas”. O post acrescentou que o Irã está disposto ao diálogo “baseado em respeito e interesses mútuos”, mas avisou que, se for forçado, “se defenderá e reagirá como nunca antes”.
Ali Shamkhani, conselheiro da liderança suprema, ampliou a resposta, alertando que a noção de um ataque “limitado” ao Irã é uma ilusão: qualquer ação militar americana seria interpretada como começo de uma guerra, com uma contra‑resposta imediata e sem precedentes, atingindo o agressor, seus apoiadores e “o coração de Tel Aviv”.
Analistas que acompanham o tabuleiro estratégico avaliam que as opções sobre a mesa da Casa Branca variam desde ataques a instalações militares e pontos sensíveis na infraestrutura iraniana até ações cirúrgicas contra lideranças consideradas chave, incluindo, segundo estimativas abertas, alvos ligados ao círculo da liderança suprema. O chefe do Estado‑Maior das Forças Armadas iranianas, Habibollah Sayyari, advertiu contra qualquer “erro de cálculo”, lembrando que os Estados Unidos também sofreriam danos em tal cenário. Nas ruas de Teerã voltaram a circular cartazes de propaganda — um deles mostrando o Irã atingindo uma porta‑aviões americano — um símbolo visual da retórica beligerante em curso.
Do ponto de vista militar concreto, a escalada americana incluiu o deslocamento de ativos de comando e controle avançados. Entre eles, chegou à região um avião E‑11A, utilizado como relé de comunicações e interoperabilidade entre aeronaves, navios, drones e forças terrestres — frequentemente descrito pela terminologia operacional como o “Wi‑Fi do campo de batalha” —, um movimento que amplia a capacidade de coordenar ações em um teatro vasto como o do Golfo e do Oceano Índico.
Enquanto as capitais calculam movimentos e contramovimentos, o cenário lembra o jogo de xadrez de alta estratégia: cada peça posta em campo modifica linhas de apoio, cria novas vulnerabilidades e reajusta os alicerces da diplomacia. A tensão atual não é apenas um confronto retórico; é um redesenho silencioso de fronteiras de influência e de dissuasão. Em meio a essa tectônica de poder, a alternativa mais segura para reduzir riscos permanece a busca de canais de diálogo discretos e robustos — antes que um lance decisivo no tabuleiro converta a crise em conflito aberto.






















