Em um gesto paradoxal que sintetiza a nova fase da diplomacia norte-americana, o Presidente Trump apresentou, em 22 de janeiro de 2026, o documento fundador do chamado Board of Peace enquanto renovava a retórica de um autoproclamado pacificador: “parei oito guerras, em breve pararei a nona”. A declaração, carregada de triunfalismo, contrasta com um balanço prático que revela, em doze meses de seu segundo mandato iniciado em 20 de janeiro de 2025, uma série de iniciativas coercitivas e operações militares que redesenham, peça a peça, o tabuleiro estratégico global.
Os episódios registrados neste período incluem ordens de bombardeios ou ataques diretos ligados a políticas externas norte-americanas em países como Irã, Iraque, Nigéria, Síria, Somália, Venezuela e Iémen. Paralelamente, a Casa Branca intensificou ameaças abertas contra outros Estados — entre eles Canadá, Colômbia, Cuba, México, o Canal do Panamá e a Groenlândia — ampliando a gama de instrumentos que vão da coerção econômica à intimidação geopolítica.
É crucial compreender esses gestos não como episódios isolados, mas como movimentos em uma lógica estratégica: cinco modalidades de expansão de influência podem ser observadas — compra de ativos e influência, invasão direta, ocupação indireta por intermédio de aliados ou proxies, coerção econômica e instalação de governos satélites. Essa tipologia desenha um repertório de ação que o establishment trumpista tem aplicado com variações circunstanciais em diferentes regiões.
No Fórum Econômico de Davos, o Presidente chegou a afirmar negociações para uma eventual aquisição da Groenlândia, condicionando relações futuras com a Europa à resposta sobre o território gelado. Foi uma mensagem dúbia, parte negociação comercial, parte advertência estratégica: “queremos um pedaço de gelo para proteger o mundo… se disserem não, nos lembraremos”. A frase expõe a tectônica de poder em que a possessão de recursos e posições geográficas se converte em alavanca de influência.
Na América Latina, as consequências são palpáveis. A expressão mais nítida do intervencionismo recente foi a operação que precipitou a mudança de regime na Venezuela. Ao mesmo tempo, planilhas estratégicas do entorno presidencial norte-americano indicam como próximos alvos potenciais países-chave da região: Colômbia, Cuba, México, o próprio Panamá — cujo canal movimenta mais de 7% do tráfego mundial de petroleiros — e grandes atores como Argentina e Brasil, além da utilização de Israel como plataforma no Mediterrâneo oriental.
O endurecimento sobre Cuba, por exemplo, reativou mecanismos de embargo que amplificaram uma crise humanitária silenciosa: racionamentos, falta de medicamentos e ondas migratórias sanitárias que evocam, em escala diversa, os alicerces frágeis da diplomacia humanitária.
Como analista, observo um padrão: a retórica de “paz” funciona como máscara política, enquanto os instrumentos aplicados consolidam uma estratégia multifacetada de dominação por meios militares, econômicos e de influência. Em linguagem de tabuleiro, trata-se de movimentos múltiplos e coordenados — alguns ostensivos, outros indiretos — visando criar espaços de controle e desestabilizar coalisões adversárias. O perigo reside não apenas nos golpes pontuais, mas no redesenho de fronteiras invisíveis que se opera quando o poder recorre sistematicamente à coerção para resolver dilemas de política externa.
O resultado é uma América — e, em extensão, um sistema internacional — mais polarizada, em que a diplomacia tradicional cede terreno a uma tectônica de poder em que aliados e adversários reavaliam suas posições estratégicas. Para governos e observadores, a lição é clara: reagir a esse movimento exige arquiteturas de resposta multilaterais, fundamentos institucionais robustos e predição dos próximos passos no tabuleiro, sob pena de ver recursos geográficos e políticos negociados como peças descartáveis.






















