Abu Dhabi — Está programado para hoje, nos Emirados Árabes Unidos, um encontro trilateral entre EUA, Rússia e Ucrânia centrado na segurança de Kiev. A cúpula chega após o encontro entre o presidente russo Vladimir Putin e o enviado norte-americano Steve Witkoff, um diálogo que o Cremlino qualificou como “útil sob todos os aspectos”.
Do lado americano, o presidente Donald Trump declarou-se cético quanto à continuidade do conflito e otimista sobre uma reviravolta nas negociações. A bordo do Air Force One, ao falar com jornalistas, Trump afirmou: “Acho que Zelensky e Putin querem encontrar um acordo” e acrescentou que “todos estão fazendo concessões para alcançar o objetivo”. Em Davos, antes, o presidente ressaltou a necessidade de “pôr fim à guerra” na Ucrânia e sublinhou que uma solução envolveria inevitavelmente a Europa.
O encontro trilateral previsto em Abu Dhabi representa um movimento importante no tabuleiro geopolítico: é uma tentativa de transformar interlocuções bilaterais e discretas — como a visita de Witkoff e a presença de Jared Kushner em conversas com o Kremlin — em um processo multilateral que possa oferecer garantias de segurança tangíveis à capital ucraniana.
Em termos práticos, a agenda provavelmente combinará questões militares, garantias de segurança, mecanismos de verificação e componentes políticos e econômicos complementares — incluindo a possibilidade de incorporar debates sobre reconstrução e estabilidade regional. Fontes oficiais mencionaram que, além das garantias, “reconstrução” e outros temas regionais podem aparecer entre os pontos discutidos.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de uma peça de xadrez em que as peças centrais tentam redesenhar, sem ruptura, as linhas de influência na Europa Oriental. A possibilidade de concessões mútuas — citada por Trump — gera uma dinâmica de risco e oportunidade: por um lado, abre caminho para reduzir a violência e salvar vidas; por outro, assenta-se sobre alicerces frágeis que exigirão árbitros confiáveis e mecanismos de fiscalização robustos.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, após declarações críticas à União Europeia em Davos, confirmou a presença no trilateral, sinalizando uma mudança tática: inserir-se num formato em que as garantias sejam discutidas diretamente com as potências que têm maior peso militar e diplomático no conflito. O Kremlin, por sua vez, vê com pragmatismo as interlocuções recentes e qualificou o encontro entre Putin e Witkoff como produtivo.
É essencial observar o papel dos Emirados Árabes Unidos como palco neutro e facilitador; Abu Dhabi funciona hoje como uma praça diplomática onde atores de diferentes eixos de influência procuram uma mesa comum. A tectônica de poder aqui não é apenas euro‑centrista: atores do Golfo experimentam crescer como facilitadores de estabilidade — um redesenho de fronteiras invisíveis no jogo global.
O que vigiar nas próximas horas: a formulação exata das garantias de segurança para Kiev, a existência de prazos e mecanismos de verificação, o papel formal da Europa no processo e se haverá declarações conjuntas sobre suspensão de hostilidades ou intercâmbio de prisioneiros. A sustentabilidade de qualquer acordo dependerá não apenas das concessões anunciadas, mas de quem assume o papel de garante e de qual arquitetura de fiscalização será estabelecida.
Em resumo, o trilateral em Abu Dhabi é um movimento decisivo no tabuleiro diplomático. Se bem conduzido, pode criar um corredor para a redução do conflito; se mal equacionado, pode apenas deslocar tensões para novos vetores. A comunidade internacional, e em especial a Europa, tem um interesse direto em que as negociações avancem não apenas em termos de declarações, mas através de garantias concretas e verificáveis.






















