Marco Severini — Em mais um movimento do tabuleiro diplomático, teve início hoje em Abu Dhabi o segundo round de negociações trilaterais entre EUA, Rússia e Ucrânia, voltado a examinar o plano de paz promovido pelo presidente americano Donald Trump. Após o primeiro contato ocorrido ontem, as delegações retornaram à mesa numa tentativa de desenhar parâmetros de saída para um conflito que já se arrasta há quase quatro anos.
De Moscou, chega uma linha dura: para avançar, Kiev deveria aceitar a retirada de sua soberania efetiva sobre o Donbass. A exigência do Kremlin reacende a disputa sobre os alicerces territoriais e políticos que permanecem entrelaçados à tectônica de poder regional. Em contrapartida, de Kiev vem a prudência clássica de quem pede garantias seguras antes de qualquer concessão.
Do ponto de vista das presenças, a delegação norte‑americana é liderada por nomes próximos ao eixo de poder de Washington: Steve Witkoff, Jared Kushner e o secretário do Exército Dan Driscoll. O time ucraniano inclui o ministro da Defesa Rustem Umerov, o chefe da inteligência Kyrylo Budanov, o conselheiro diplomático Serhii Kyslytsia e o chefe do Estado‑Maior Andrii Hnatov. Pela Rússia, além do enviado Kostyukov, participa o gestor econômico Kirill Dmitriev.
Segundo o principal negociador ucraniano, Rustem Umerov, as conversas concentram‑se “nos parâmetros para pôr fim à guerra russa e na lógica do processo negocial futuro”. Essa formulação resume bem a natureza do conflito: não apenas confronto militar, mas um complexo quebra‑cabeça de garantias, presença de forças estrangeiras e salvaguardas econômicas.
A primeira minuta estadunidense recebeu críticas em Kiev e em capitais europeias, acusada de pender em demasia para posições confortáveis à Moscou. Posteriores propostas encontraram a frontal rejeição do Kremlin — sobretudo perante a hipótese de forças de paz europeias no terreno, que o governo russo considera inaceitável. Em suma, ambas as partes reconhecem que o destino do Donbass continua central e não resolvido.
No epicentro das conversações, o dossier da segurança de Kiev divide o tempo com a agenda econômica: está agendada uma reunião entre Steve Witkoff e o enviado russo para assuntos econômicos, Kirill Dmitriev, justamente para discutir os impactos e compensações que um acordo poderia acarretar para a reconstrução e para as sanções.
Em paralelo às negociações, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que os EUA fornecerão novos meios de defesa, assegurando que Trump entregará mísseis Patriot a Kiev. A declaração é tanto um sinal de reforço ao moral ucraniano quanto um movimento estratégico no tabuleiro — garantir capacidades defensivas enquanto se negocia território e garantias.
Do meu ponto de vista, esta rodada em Abu Dhabi configura um momento crítico de realinhamento: não se trata apenas de ceder ou resistir, mas de redesenhar, com cautela, as fronteiras invisíveis da influência. Se as conversas progredirem, será porque houver um desenho claro de garantias verificáveis e mecanismos econômicos que minimizem o risco de reversões. Caso contrário, assistiremos a mais um impasse que prolongará a guerra por tempo indeterminado.
Em termos práticos, o resultado esperado é incerto. A diplomacia, como no xadrez, exige previsibilidade do adversário e forças posicionadas para reagir. Hoje, as peças estão lançadas; resta ver quem fará o movimento decisivo.






















