Por Marco Severini — Em um movimento que altera a tectônica de poder no tabuleiro diplomático, o Cremlino anunciou a realização, já para hoje, de uma reunião trilateral em Abu Dhabi envolvendo EUA, Rússia e Ucrânia. A iniciativa foi comunicada pelo conselheiro diplomático do Kremlin, Yuri Ushakov, ao término do encontro entre o presidente Vladimir Putin e o enviado americano Steve Witkoff.
Segundo Ushakov, “foi acordado que já hoje ocorrerá em Abu Dhabi a primeira reunião de um grupo de trabalho trilateral sobre questões de segurança”. A declaração sublinha que o encontro entre Putin e Witkoff, na quinta-feira, foi “útil sob todos os aspectos”, e que os americanos tiveram papel proativo na preparação da sessão, na expectativa de que ela “seja um sucesso e abra caminho ao progresso em todas as questões relativas ao fim do conflito”.
O Kremlin também confirmou que, na sexta-feira em Abu Dhabi, terá lugar um encontro dedicado a temáticas econômicas entre Steve Witkoff e o enviado russo para assuntos econômicos internacionais, Kirill Dmitriev. Ushakov enfatizou o interesse russo em buscar uma resolução “por meios políticos e diplomáticos”, embora tenha advertido que, enquanto isso não se concretizar, a Rússia continuará a perseguir seus objetivos no campo de batalha.
A declaração de Moscou contém uma linha vermelha estratégica: a impossibilidade de uma paz “duradoura” sem uma solução para a questão territorial. Em palavras precisas de Ushakov, durante as negociações entre o presidente russo e os enviados da Casa Branca — Steve Witkoff e Jared Kushner — ficou reiterado que “sem uma solução à questão territorial não se pode esperar um acordo duradouro”.
Como analista que observa o tabuleiro com um olhar de arquiteto clássico, vejo este encontro como um movimento decisivo: não uma capitulação, mas uma tentativa de redesenhar fronteiras invisíveis da negociação, combinando segurança e incentivos econômicos para criar um novo equilíbrio de poderes.
Paralelamente, a União Europeia buscou exibir unidade e firmeza em resposta a recentes provocações diplomáticas e à retórica externa. Em uma reunião de emergência em Bruxelas, os líderes europeus — representados pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa — consolidaram quatro princípios: firmeza, abertura, preparação e unidade. O encontro, que durou cerca de cinco horas e terminou sem as tradicionais coletivas de imprensa, reforçou a disposição do bloco em combinar diálogo com medidas econômicas contundentes, quando necessário.
O episódio envolvendo a Groenlândia e declarações do ex-presidente dos EUA acrescentou tensão ao contexto transatlântico, exigindo uma resposta coordenada dos países europeus. A leitura política é clara: a Europa procura manter os alicerces da diplomacia atlântica, mas demonstra que está pronta a usar seu “bazuca” comercial quando seus interesses estratégicos forem desafiados.
O encontro em Abu Dhabi terá, portanto, caráter duplo — de segurança e econômico — e surge como um teste para a capacidade dos atores de transformar movimentações de poder em compromissos tangíveis. Em termos de estratégia, este é um movimento de meio-jogo: buscar vitórias posicionais que permitam, no futuro, um desfecho negociado. Resta observar se as partes conseguirão transformar intenções em normas duradouras ou se voltaremos a ver a lógica da força reconfigurar o tabuleiro.





















