A anunciada trégua do gelo, tornada pública ontem por Donald Trump, mostrou-se frágil perante um movimento que reconfigura o tabuleiro de poder: a Ucrânia acusou as forças russas de terem lançado um míssil balístico Iskander-M e cerca de 111 drones de ataque durante a noite, atingindo pelo menos 15 localidades distintas.
No relatório diário, a Aeronáutica Militar ucraniana afirmou que, apesar da escala do ataque, aproximadamente 80 dos aparelhos aéreos não tripulados foram derrubados pelas defesas do país. Esta sequência tensa ocorre apenas algumas horas depois de o ex-presidente norte-americano ter declarado ter solicitado a Vladimir Putin a suspensão, por uma semana, dos ataques aéreos sobre Kiev e outras cidades, e de que o presidente russo teria concordado.
Em termos diplomáticos, trata-se de um movimento que ilustra a delicada arquitetura das promessas: a Casa Branca não detalhou os termos exatos da proposta anunciada, e a falta de transparência aumenta a margem de interpretação estratégica — a mesma margem utilizada por atores estatais quando desenham territórios de influência que não aparecem nos mapas oficiais.
Os alvos distribuídos em 15 localidades, segundo as Forças Armadas ucranianas, revelam uma operação coordenada de saturação, na qual o emprego massivo de drones funciona como um aríete para testar pontos frágeis da defesa aérea. O emprego do Iskander-M, um componente balístico de maior letalidade, acrescenta outra camada de intensidade e simboliza um gesto capaz de alterar percepções sobre a continuidade do conflito.
O episódio ganha maior relevância à luz das negociações diretas previstas para domingo, nos Emirados Árabes Unidos, quando representantes russos e ucranianos devem sentar-se frente a frente. Em termos de estratégia, esta noite de ataques pode ser interpretada como uma tentativa de Moscou de reagrupar posições antes do encontro, ou como um aviso de que as pausas negociadas no nível das declarações públicas não se traduzem necessariamente em cessar-fogo operacional.
Observando o cenário com cautela de um estrategista, percebe-se que cada gesto — verbal ou material — é uma jogada num xadrez de alto risco: há, por um lado, a necessidade de preservar canais que permitam a negociação; por outro, a pressão interna e a lógica militar que leva a movimentos que corroem a confiança. A tensão entre essas forças molda a atual tectônica de poder na região.
Para a comunidade internacional, resta acompanhar se a reunião nos Emirados funcionará como um momento de consolidação de acordos operacionais — isto é, com mecanismos claros de verificação e moderação — ou se será apenas mais um ato na partitura das declarações públicas, sujeita a rupturas no terreno. A estabilidade futura dependerá tanto da robustez dos mecanismos de verificação quanto da disposição política de sustentar compromissos — alicerces que, neste momento, se mostram precários.
Marco Severini
Espresso Italia — análise de geopolítica e estratégia internacional






















