Por Marco Severini — A chamada tregua do gelo mostrou-se efêmera: um ataque direcionado ao sistema energético ucraniano deixou cerca de 50 cidades e aldeias da região de Vinnytsia sem eletricidade, em mais um movimento que redesenha, de forma abrupta, as linhas do poder no tabuleiro europeu.
Natalia Zabolotna, chefe da Administração Militar de Vinnytsia, declarou que a região sofreu “um massivo ataque inimigo” com impacto direto em infraestruturas críticas. Ao mesmo tempo, a capital enfrenta uma crise humanitária aguda: quase 1.200 condomínios — o prefeito Vitali Klitschko informou 1.170 edifícios — estão sem aquecimento, em meio a temperaturas que se aproximam dos -20°C.
Trata-se do primeiro ataque às infraestruturas energéticas desde que Moscou, segundo anúncio feito no fim de janeiro, concordou temporariamente em suspender esses ataques. A retomada da ofensiva contra redes elétricas chega no momento em que a população ucraniana mais depende desses serviços, fragilizando os alicerces da diplomacia e expondo civis a riscos imediatos.
Além dos danos em Vinnytsia e das interrupções de aquecimento em Kiev, houve relatos de defesas aéreas acionadas na capital durante a madrugada, quando drones russos se aproximaram. Explosões foram ouvidas ao longo de cerca de uma hora, e mísseis balísticos foram apontados a partir da região de Bryansk.
Os ataques foram registrados também em localidades mais próximas da linha de frente: Kharkiv, Dnipro, Zaporizhzhia e Sumy. Em Kharkiv, explosões atingiram o distrito de Slobidskyi; dois feridos foram confirmados pelo governador Oleh Synehubov, que informou que equipes médicas estavam prestando socorro no local.
O prefeito Vitali Klitschko informou ainda danos a um imóvel não residencial no distrito de Darnytskyi e a um prédio que abriga uma silagem no distrito de Dniprovskyi; o número de vítimas, porém, permanece incerto.
Em reação, o presidente Volodymyr Zelensky acusou a Rússia de priorizar ataques sobre a população e as infraestruturas críticas em detrimento de negociações de paz. “Aproveitar os dias mais frios do inverno para aterrorizar a população é mais importante para a Rússia do que recorrer à diplomacia”, escreveu Zelensky nas redes sociais, enquanto equipes ucranianas reportavam dezenas de mísseis e centenas de drones lançados durante a noite.
Do ponto de vista estratégico, o episódio demonstra um movimento decisivo no tabuleiro: o retorno aos ataques energéticos busca minar a capacidade de resistência civil e estatal, pressionando não apenas a logística do país, mas também os cálculos políticos de parceiros externos. A ruptura da trégua evidencia os alicerces frágeis das cessões temporárias e a persistente tectônica de poder entre Moscou e Kiev.
Em suma, a comunidade internacional observa, sombria, um novo capítulo de escalada que combina armas convencionais e ataques às infraestruturas, em um inverno que acentua as consequências humanitárias. A leitura estratégica é clara: quando se mira a infraestrutura vital do adversário, o objetivo é redesenhar fronteiras invisíveis de resistência e velocidade de tomada de decisão.
Fontes: comunicações das administrações regionais (Vinnytsia, Kharkiv), declarações do prefeito de Kiev e pronunciamentos do gabinete presidencial ucraniano.






















