Por Marco Severini — A recente tregua do frio, anunciada como uma paralisação temporária dos bombardeios sobre Kiev por sete dias — comunicada por Donald Trump e, segundo relatos, com a anuência de Vladimir Putin — estabelece um raro momento de contenção no conflito mais longo da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. O gesto, motivado pelo frio extremo e pelas consequências humanitárias do apagão energético, abre uma janela diplomática que Washington procura transformar em um avanço concreto rumo a um acordo.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, agradeceu aos Estados Unidos e ao processo mediado por atores norte-americanos, destacando que a Ucrânia está “pronta para encontros e decisões” e esperando que parceiros em Washington e na Europa ajam com eficácia para uma paz duradoura. Paralelamente, o Kremlin mantém postura rígida: Moscou continua a atacar infraestruturas energéticas ucranianas e condiciona encontros diretos entre os presidentes a um formato favorável à Rússia, criticando Odessa por supostas não respostas a convites.
Os últimos diálogos entre delegações russas e ucranianas, mediados pelos Estados Unidos em Abu Dhabi, foram qualificados por autoridades americanas como “positivos e construtivos”. Um novo ciclo de conversações está marcado para domingo, em uma sequência de manobras diplomáticas onde figuras ligadas à campanha de Trump, como Steve Witkoff e Jared Kushner, desempenham papel de interlocutores.
Em termos estratégicos, Washington delineou um caminho claro — ainda que controverso: ancorado na ideia de que Kiev poderia aceitar concessões territoriais, notadamente na região do Donbass, em troca de promessas ocidentais de garantias militares e de um projeto amplo de reconstrução econômica. Esse arcabouço traduz-se, na prática, no redesenho de fronteiras políticas e influências, com a reconstrução servindo como instrumento de reinserção econômica e política.
Segundo análise do Wall Street Journal, três cenários substanciais emergem para 2026:
- Guerra de atrito com negociações inconclusivas — cenário considerado o mais provável: o conflito continua em ritmo reduzido, com trocas de fogo e ataques pontuais enquanto conversações produzem acordos parciais e instáveis. Aqui, o tabuleiro permanece em movimento, mas sem um xeque-mate decisivo.
- Rendimento por desgaste — um cenário onde a Ucrânia, submetida a um esgotamento prolongado de recursos humanos e materiais, vê-se forçada a ceder territórios na prática, por incapacidade operacional de sustentar todas as frentes. A erosão da capacidade de defesa transformaria posições defensivas em trampolim para novas pressões.
- Acordo negociado com concessões e garantias — a via que Washington promove: cessar-fogo formal seguido de concessões territoriais ucranianas compensadas por pacotes de garantias de segurança occidentais, assistência massiva para reconstrução e compromissos diplomáticos que visem estabilizar a região. Esse resultado criaria uma paz com alicerces frágeis, passível de testar os equilíbrios de poder por anos.
Na prática, cada uma dessas rotas carrega contornos de risco e oportunidades. A negociação que exige terrenos cedidos como moeda de troca por segurança externa insere um dilema de soberania para Kiev: aceitar o preço imediato da estabilidade ou prolongar a resistência na esperança de retomar territórios no futuro. É um movimento de alto risco no tabuleiro geopolítico, onde cada peça sacrificada pode alterar a tectônica de poder regional.
Enquanto os mediadores americanas tentam converter a tregua humanitária em progresso político, as ações sobre o terreno — ataques a infraestruturas, mensagens públicas dos líderes e a postura do Kremlin sobre encontros presidenciais — mantêm a incerteza. O domingo das próximas conversações será, portanto, um movimento decisivo: não necessariamente para entregar o xeque-mate, mas para definir se o conflito avança para um estado de congelamento diplomático ou para uma sequência renovada de hostilidades.
Em suma, a semana que se inicia não é um fim, mas um teste de capacidade de tradução de uma pausa humanitária em ganhos estratégicos duráveis. A estabilidade que se busca hoje exige mais do que boas intenções; pede arquitetos de acordos com visão de longo prazo e garantias reais de execução — a diplomacia, como sempre, trabalha sobre alicerces frágeis.






















