Por Marco Severini — A morte de Khamenei lançou o Irã num processo de transição cuja duração e contornos permanecem incertos, enquanto o conflito com os Estados Unidos e Israel se alarga pela região. Em entrevista ao AGI, o diretor do Institute for Global Studies, Nicola Pedde, identifica as principais incógnitas — e as poucas certezas — que moldarão o novo capítulo da República Islâmica.
O ataque à sede em Qom da Assembleia dos Especialistas, o órgão encarregado de eleger a nova Guia Suprema, sugere, nas palavras de Pedde, que a nomeação do sucessor sofrerá atrasos: designar um novo líder em plena conflagração significaria convertê-lo, de imediato, em um alvo preciso para Estados Unidos e Israel. É uma jogada no tabuleiro que expõe fragilidades — e, paradoxalmente, revela força estrutural.
Ao contrário da visão simplista de um sistema monolítico centrado exclusivamente na figura da Guia Suprema, o Irã dispõe de uma arquitetura política e militar reticulada e estratificada. Pedde lembra que, mesmo com o desaparecimento do núcleo dirigente e de figuras militares de alto escalão, o sistema conserva capacidade de regeneração e uma notável resiliência, superior ao que estimam alguns interlocutores externos.
Outra variável crítica nessa transição é a convivência e a tensão entre o aparato institucional — representado pelo triunvirato interino que governa enquanto se aguarda a eleição da nova liderança — e o órgão encarregado da gestão da emergência, o Conselho Supremo de Segurança Nacional, presidido pelo influente Ali Larijani. Segundo Pedde, esse conselho está fortemente permeado pelos Pasdaran e atua não apenas nos vetores militares, mas também como uma câmara de compensação político-militar que reduz a autonomia dos demais atores.
Das incógnitas, emerge, contudo, uma conclusão firme: a consagração do poder aos Guardiões da Revolução (IRGC), os Pasdaran. O que assistimos é a transição para uma segunda geração dirigente, onde os quadros militares e os interesses estratégicos do IRGC assumem posições centrais, frequentemente em tensão com a componente clerical, mais pragmática e inclinada ao negociante. Essa guinada mudará os alicerces da diplomacia e da política interna.
Com a morte dos líderes da primeira geração revolucionária, desaparece o último baluarte de um poder com traços de revolução fundadora. O que entra em cena é uma geração moldada pela institucionalização militar do poder: uma força menos propensa a concessões, com visões estratégicas mais rígidas e menos orientadas ao diálogo.
No plano regional, essa recomposição do espectro de poder iraniano tem efeitos multiplicadores. A ascensão dos Pasdaran ao centro decisório redesenha linhas de influência e recalibra riscos — tanto para aliados quanto para adversários. Em termos de cartografia estratégica, é como se surgisse um novo eixo de influência, que reposiciona peças no tabuleiro do Oriente Médio.
Do ponto de vista operacional, a ordem de prioridades será ditada pela necessidade de segurança interna, coesão das forças armadas e sobrevivência do regime, ao mesmo tempo em que se busca evitar convulsões externas que possam acelerar decisões drásticas, como a proclamação precipitada de um novo chefe supremo. Assim, a temporização na escolha de uma Guia Suprema é um movimento calculado: proteger a peça maior enquanto se reorganizam as formações ao redor dela.
Em suma, a morte de Khamenei não encerra o sistema: reorienta-o. A tectônica de poder no Irã está em movimento — menos uma queda abrupta, mais um redesenho lento e profundo das fronteiras internas do poder. A estabilidade regional dependerá, nas próximas semanas e meses, da capacidade dessa nova arquitetura de evitar choques frontais com potências externas e de manter a coerência interna do Estado.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica para Espresso Italia.






















